Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 18 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Maria

Ao trespassar um cólo arredondado e terno...

MARIA

Descansa: não hei de ir incommodar-te ao inferno!

Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela

soldadesca; e Maria, affagando Martha, que não cessou de chorar, leva-a

comsigo para casa.

 

Apparecem então os fariseus Benjamim e Josué, cautelosos, o olhar

obliquo circumdando o terreno, como bons espiões: concretisação grotesca

da hipocrisia sacerdotal da época. Mantos negros, andar pausado, mitras de

feitio semelhante á dos outros judeus, mas de maior dimensão. Debaixo dos

braços, os rôlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um pouco

alquebrado, por calculo, parece não querer levantar do chão o olhar para as

coisas superiores ao pó da terra; Josué, pelo contrario, conserva-os erguidos

ao ceu como para não os baixar ás coisas mundanaes. Claro é que de

quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos manifestam-se.

BENJAMIM

Não ha que duvidar: chegaram todos.

OSUÉ

Viste bem, Benjamim? seria engano...

BENJAMIM

Engano o que? Se affirmo, se até juro Ter visto o Mestre e os dose companheiros. Tomaram pela horta do Simão,

E em bréve hão de estar n'aquella casa.

 

E approxima-se da casa do Leproso. Detem-se; prestando attenção, ouve a

distancia o murmurio festivo do povo que, saúda com Hossannas! a chegada

do Rabbi da Galiléa.

 

Eu não te digo?... O povo já começa

A correr ao encontro. Dentro em pouco, Vae por esta Bethania uma celeuma,

Que nem no Templo em dia de festejo!

Eis portanto o momento ambicionado

De cumprirmos as ordens recebidas...