Judas: romance lírico em quatro jornadas
Maria
Ao trespassar um cólo arredondado e terno...
MARIA
Descansa: não hei de ir incommodar-te ao inferno!
Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela
soldadesca; e Maria, affagando Martha, que não cessou de chorar, leva-a
comsigo para casa.
Apparecem então os fariseus Benjamim e Josué, cautelosos, o olhar
obliquo circumdando o terreno, como bons espiões: concretisação grotesca
da hipocrisia sacerdotal da época. Mantos negros, andar pausado, mitras de
feitio semelhante á dos outros judeus, mas de maior dimensão. Debaixo dos
braços, os rôlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um pouco
alquebrado, por calculo, parece não querer levantar do chão o olhar para as
coisas superiores ao pó da terra; Josué, pelo contrario, conserva-os erguidos
ao ceu como para não os baixar ás coisas mundanaes. Claro é que de
quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos manifestam-se.
BENJAMIM
Não ha que duvidar: chegaram todos.
OSUÉ
Viste bem, Benjamim? seria engano...
BENJAMIM
Engano o que? Se affirmo, se até juro Ter visto o Mestre e os dose companheiros. Tomaram pela horta do Simão,
E em bréve hão de estar n'aquella casa.
E approxima-se da casa do Leproso. Detem-se; prestando attenção, ouve a
distancia o murmurio festivo do povo que, saúda com Hossannas! a chegada
do Rabbi da Galiléa.
Eu não te digo?... O povo já começa
A correr ao encontro. Dentro em pouco, Vae por esta Bethania uma celeuma,
Que nem no Templo em dia de festejo!
Eis portanto o momento ambicionado
De cumprirmos as ordens recebidas...