Judas: romance lírico em quatro jornadas
Matheus
Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade!
MATHEUS
E ficam bem á vista os muros da cidade... Não sei o que adivinho!...
OÃO
Ao largo esse receio!
Muito mais me entristece a nuvem má que veio Escurecer ao Mestre o doce olhar...
SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma intimidade
muito amiga:
Meu caro,
Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo O tempo que passou a este em que hoje estamos: O verbo illuminando a treva e os recamos Do manto a que se abriga uma ambição enorme; As contorsões finaes do animal disforme Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés, Rojando-se afinal vencido a nossos pés!
ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae n'alma:
E julgas que não tarda em despontar o dia Tão desejado?
SIMÃO PEDRA
Eu?! Pois quem duvidaría?
—A doutrina do Mestre é como o grão de trigo, Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo. Que mais cuidados tem o bom do lavrador? Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor, Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão, A força e o poder da multiplicação.
Se o lavrador depois no campo seu repára E vê brilhar ao sol a refulgente seára,Exclama, commovido: Abençoada terra,
Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!
ELEAZAR, quasi a medo:
Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?
SIMÃO PEDRA
Quem passa pela estrada e attenta no crescer Do risonho trigal, diz logo, reverente: Bemdito quem dispoz na terra esta semente!