Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 22 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Matheus

Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade!

MATHEUS

E ficam bem á vista os muros da cidade... Não sei o que adivinho!...

OÃO

Ao largo esse receio!

Muito mais me entristece a nuvem má que veio Escurecer ao Mestre o doce olhar...

SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma intimidade

muito amiga:

Meu caro,

Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo O tempo que passou a este em que hoje estamos: O verbo illuminando a treva e os recamos Do manto a que se abriga uma ambição enorme; As contorsões finaes do animal disforme Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés, Rojando-se afinal vencido a nossos pés!

ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae n'alma:

E julgas que não tarda em despontar o dia Tão desejado?

SIMÃO PEDRA

Eu?! Pois quem duvidaría?

—A doutrina do Mestre é como o grão de trigo, Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo. Que mais cuidados tem o bom do lavrador? Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor, Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão, A força e o poder da multiplicação.

Se o lavrador depois no campo seu repára E vê brilhar ao sol a refulgente seára,Exclama, commovido: Abençoada terra,

Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!

ELEAZAR, quasi a medo:

Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?

SIMÃO PEDRA

Quem passa pela estrada e attenta no crescer Do risonho trigal, diz logo, reverente: Bemdito quem dispoz na terra esta semente!