Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARTHA intimativamente, retirando-se da janella:
Dize que venham depressa,
Porque, faltando ao convite,
Sem vós a ceia começa!
OÃO a Matheus e a Eleazar, continuando a conversa interrompida e n'um tom de
voz inaudivel para Judas:
Dizeis que elle é honesto e probo e crente, em summa
Que para ser dos bons não falta a coisa alguma...
Talvez que seja assim como dizeis. No entanto,
Se para o seu olhar o meu olhar levanto...
—É tectrico e sombrio aquelle olhar revêsso!
Pensando sempre! Em quê?—Amigos, bem conheço
Que pode ser fatal este misterio vivo!
Qualquer de nós é meigo, alegre e expansivo...
—Quizeram confiar-lhe a bolsa do dinheiro:
Não procederam bem.
SIMÃO PEDRA que se reunira aos tres, carregando o semblante:
Porquê?
OÃO em tom leviano:
O embusteiro
Apenas retribue a prova de amizade
Gastando em seu proveito o que é da sociedade.
SIMÃO PEDRA, que não poude reprimir um sobresalto, tornando-se ainda mais
severo:
Já não te quero ouvir nem mais uma palavra!No teu peito leal um
sentimento lavra
Improprio de quem és! Lá dentro direi tudo.
Depois do que te ouvi, não posso ficar mudo!
ELEAZAR conciliador:
Então!
MATHEUS detendo Simão Pedra, que ia para entrar em casa do Leproso:
Menos calor!
OÃO repêso, meigo, supplicante:
Oh! cala-te, por Deus!
Não vás exacerbar ao nosso Mestre os seus
Desgostos; porque, emfim, sou muito leviano...
Proveio o que me ouviste apenas de um engano...
Simão Pedra, desculpa!