Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 51 de 93

Páginas do PDF

Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA com ligeiro movimento de cabeça:

Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido,

como revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em

curvas graciosas, languidas:

Mas desde que no teu o meu olhar depuz, Enxerguei o brilhar d'uma divina luz

Na immensa escuridão d'este viver amargo E senti-me surgir do fundo do lethargo. Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem, Adorada Maria, envolta na roupagem

Tão alva como o arminho, immaculada e honesta: No prado sorridente, em meio da floresta, Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros, No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros... Por toda a parte, em summa!—Adoro-te, Maria! No caminho da vida o teu olhar me guia... Vem dar uma esperança ao pobre coração Que vive para ti, que te pertence...

MARIA com ligeiro movimento de cabeça:

Não.

UDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:

Oh! que negra palavra, amarga como fel!

MARIA com a voz tranquilla:

Á doutrina do Mestre...

UDAS interrompendo-a com uma risada feroz:

O Mestre!...

MARIA

... és infiel.

Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro Do que seja o dever, e que se torna avaro, Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista! Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista! Se não queres viver do amor pela virtude, Se á pureza é rebelde essa tua alma rude, Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte: Foge para distante, ou foge para a Morte.

UDAS allucinado, avançando para ella: