Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARIA com ligeiro movimento de cabeça:
Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido,
como revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em
curvas graciosas, languidas:
Mas desde que no teu o meu olhar depuz, Enxerguei o brilhar d'uma divina luz
Na immensa escuridão d'este viver amargo E senti-me surgir do fundo do lethargo. Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem, Adorada Maria, envolta na roupagem
Tão alva como o arminho, immaculada e honesta: No prado sorridente, em meio da floresta, Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros, No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros... Por toda a parte, em summa!—Adoro-te, Maria! No caminho da vida o teu olhar me guia... Vem dar uma esperança ao pobre coração Que vive para ti, que te pertence...
MARIA com ligeiro movimento de cabeça:
Não.
UDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:
Oh! que negra palavra, amarga como fel!
MARIA com a voz tranquilla:
Á doutrina do Mestre...
UDAS interrompendo-a com uma risada feroz:
O Mestre!...
MARIA
... és infiel.
Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro Do que seja o dever, e que se torna avaro, Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista! Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista! Se não queres viver do amor pela virtude, Se á pureza é rebelde essa tua alma rude, Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte: Foge para distante, ou foge para a Morte.
UDAS allucinado, avançando para ella: