Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 63 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o á bôa paz:

Pois digo-te que nunca has de caír na lama

Co'o pilo de oiro! Não! D'Oriente a Occidente,

A aguia de Roma é grande, e nunca foi serpente!

E poisando o pilo na meza, com ruido, senta-se.

HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o á bôa paz:

Eu não falo por mim; eu falo por Moysés,

Cuja doutrina tem sido calcada aos pés

D'um homem, que apresenta uma doutrina estranha

Ao direito e á lei; que os pobres arrebanha

Só para dizer mal dos grandes e dos ricos;

Que dirige a palavra aos seres impudícos,

Ás mulheres venaes, aos infimos ladrões;

Que anda em nome de Deus a conceder perdões

A toda a gente; emfim, que o povo, em desatino,

Se atreve a inculcar como um ente divino!

PONCIO tranquillo, sorrindo:

Quem sabe?... Pode ser...

HANAN recuando, como se ouvisse uma heresia:

O quê?!

PONCIO com bonhomia, exagerando muito o valor das palavras:

Se te reféres

Ao Nazareno em vão me falas. Nunca espéres

Que eu ponha ao teu serviço a minha autoridade

Para o matar. Não mato uma celebridade.

Conheço-o muito bem. Inda ha trez dias teve

Uma grande ovação. De resto, não se atreve

A suscitar no povo o odio contra o Império:

Deseja que se entregue a Deus e a Tibério

O que pertence a Deus e o que pertence a Roma.

Agrada-me o desejo. É o melhor diploma

Que lhe ha de garantir a minha protecção.

HANAN ao ouvido de Judas:

Ficou tudo perdido, ó Judas.

UDAS reservadamente:

Ainda não.

Péde para eu falar.

HANAN

Duvído...

UDAS