Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 13 de 93

Páginas do PDF

Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA desculpando-os:

Para elles outro mundo!

Têem sincera affeição,

Tributam amor profundo

Ao paiz de Salomão!

MARIA desculpando-os:

A sua terra natal...

—Todos dizem que em verdade

É um paiz ideal

A Galilêa.

MARTHA

Quem ha de

Duvidar, se elle inspirou

Os galanteios doirados

D'aquelles apaixonados...

—Como elles, ninguem amou!

Depois de alguma hesitação reconstituiu na memoria o cantico, e recita-o,

com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado de languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com elle, deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados.

«É formoso o meu amante,

Formoso como nenhum,

E como o cédro elegante...

É formoso o meu amante,

Formoso como nenhum...

«São de perfumes e odores

Suas faces purpurinas,

Dois ramalhetes de flores...

E suas mãos dois primores

Das pedrarias mais finas.

 

«O seu corpo deslumbrante

Do marfim o brilho tem...

—Eu aqui... Elle distante...

Onde está o meu amante,

Filhas de Jerusalem?»

Olhando de fito para a irmã:

Esta idéa é mesmo linda!

MARIA com frieza, como a da corrente d'agua que entre os seus dedos vae

deslisando:

Amôres...

MARTHA