Judas: romance lírico em quatro jornadas
JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria consciencia:
Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta:
Acceita em pensamento
O que d'aqui te envio: em tão cruel momento, Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha! —Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João.
E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta:
Canalha!
OÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria
consciencia:
Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse Pedir ao exagero o auxilio necessario Para augmentar de vulto o crime involuntario, Ou a leviandade alheia á malvadez.
Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez Arrastar pelo mundo uma existencia nua De affectos, desgraçada... E não por culpa sua...
Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de
Bethania.
ELEAZAR indicando João aos companheiros:
Eil-o aqui está! E nós á tua espera!
SIMÃO PEDRA
São horas de partir para a cidade.
OÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu
pensamento entregue ao Mestre:
Não deve ser pequena a caravana!
MATHEUS
Junto do Mestre, o povo delibera
Acompanhal-o.
SIMÃO PEDRA
O que é grande imprudencia!
OÃO
Grande imprudencia?!
SIMÃO PEDRA