Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 37 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria consciencia:

Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta:

Acceita em pensamento

O que d'aqui te envio: em tão cruel momento, Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha! —Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João.

E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta:

Canalha!

OÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria

consciencia:

Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse Pedir ao exagero o auxilio necessario Para augmentar de vulto o crime involuntario, Ou a leviandade alheia á malvadez.

Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez Arrastar pelo mundo uma existencia nua De affectos, desgraçada... E não por culpa sua...

 

Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de

Bethania.

ELEAZAR indicando João aos companheiros:

Eil-o aqui está! E nós á tua espera!

SIMÃO PEDRA

São horas de partir para a cidade.

OÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu

pensamento entregue ao Mestre:

Não deve ser pequena a caravana!

MATHEUS

Junto do Mestre, o povo delibera

Acompanhal-o.

SIMÃO PEDRA

O que é grande imprudencia!

OÃO

Grande imprudencia?!

SIMÃO PEDRA