Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARIA parando tambem:
Judas!
UDAS, desvairado:
Ah! cobarde salteador
D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor?
O olhar, que seduzia, infunde repugnancia!
O hálito d'outr'ora, a virginal frangancia,
Que me embriagava, enója! Hálito, corpo, olhar,
Ao largo! Vae, mulher! Não poderei amar
A carne do meu crime! Odeio-te!
MARIA, reposta da primeira impressão, serenamente:
Não vim
Trazer o meu amor.
UDAS
Que queres tu de mim?
Trazes-me o teu perdão?
Solta uma risada nervosa.
MARIA
O riso da demencia
Nunca ha de suffocar a tua consciencia,
Que géme e se revolve em negro torvelinho.
Podes rir... mas eu vou seguindo o meu caminho.
UDAS impedindo-lhe a passagem:
E a maldição ha de ir seguindo-te as pisadas!
MARIA
A tua maldição... as tuas gargalhadas!...
—Como o teu odio é bom!
UDAS
Inda não é bastante
Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante,
Como eu satisfaria este voraz desejo:
Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo!
Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois,
Fruir o teu amor, e arrojar depois
O teu corpo e a paixão de que hoje ainda te nutres
Aos ventres bestiaes dos ávidos abutres!
—Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!...
MARIA muito calma: