Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 89 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA parando tambem:

Judas!

UDAS, desvairado:

Ah! cobarde salteador

D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor?

O olhar, que seduzia, infunde repugnancia!

O hálito d'outr'ora, a virginal frangancia,

Que me embriagava, enója! Hálito, corpo, olhar,

Ao largo! Vae, mulher! Não poderei amar

A carne do meu crime! Odeio-te!

MARIA, reposta da primeira impressão, serenamente:

Não vim

Trazer o meu amor.

UDAS

Que queres tu de mim?

Trazes-me o teu perdão?

Solta uma risada nervosa.

MARIA

O riso da demencia

Nunca ha de suffocar a tua consciencia,

Que géme e se revolve em negro torvelinho.

Podes rir... mas eu vou seguindo o meu caminho.

UDAS impedindo-lhe a passagem:

E a maldição ha de ir seguindo-te as pisadas!

MARIA

A tua maldição... as tuas gargalhadas!...

—Como o teu odio é bom!

UDAS

Inda não é bastante

Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante,

Como eu satisfaria este voraz desejo:

Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo!

Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois,

Fruir o teu amor, e arrojar depois

O teu corpo e a paixão de que hoje ainda te nutres

Aos ventres bestiaes dos ávidos abutres!

—Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!...

MARIA muito calma: