Judas: romance lírico em quatro jornadas
JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:
rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham entre os labios vermelhos;
e quando irado, o labio inferior que é grosso, sensual, estremece-lhe como o
d'um touro em circo romano. É uma d'essas creaturas que não sabemos se
devam inspirar-nos simpathia, se conservar no nosso espirito a idéa de
repulsão que a principio nos dispertaram. Gestos angulosos e rigidos; mãos,
braços e peito cabelludos; andar pesado. Voz de tonalidades irregulares;
extremamente meiga e cariciosa na dôr, extremamente vibrante, herculea na
cólera.
UDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:
Que mal te fiz, João? Chego a pensar que estudas As tuas aggressões áquelle que te présa! Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illésa. De injurias contra mim tu sempre estás faminto! Que mal te fiz, João? Tu pensas que não sinto... (E crê que muita vez isto me vem á idéa) ... Ter nascido em Judá e não na Galiléa? Sou culpado de quê? De ter a pélle escura? De ter cabello negro? Isto é para censura?
MATHEUS conciliadôr:
Mas se elle já te disse...
UDAS
E eu digo que, em verdade, Prefiro lealmente o odio a esta amizade!
E volta aos seus pensamentos dominantes.
MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil:
Vinde ceiar, que são horas.
Não quereis?
SIMÃO PEDRA, aproveitando a inconsciente intervenção de Martha
Nem se duvída!
MARTHA
Pois deixae-vos de demoras,
Aliás vae-se a comida!
—Uma ceia improvisada
Mas nem por isso mesquinha,
Podeis crêr.
SIMÃO PEDRA
A caminhada
Que fizemos foi damninha...
Por aguçar o appetite.