Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 24 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:

rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham entre os labios vermelhos;

e quando irado, o labio inferior que é grosso, sensual, estremece-lhe como o

d'um touro em circo romano. É uma d'essas creaturas que não sabemos se

devam inspirar-nos simpathia, se conservar no nosso espirito a idéa de

repulsão que a principio nos dispertaram. Gestos angulosos e rigidos; mãos,

braços e peito cabelludos; andar pesado. Voz de tonalidades irregulares;

extremamente meiga e cariciosa na dôr, extremamente vibrante, herculea na

cólera.

UDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:

Que mal te fiz, João? Chego a pensar que estudas As tuas aggressões áquelle que te présa! Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illésa. De injurias contra mim tu sempre estás faminto! Que mal te fiz, João? Tu pensas que não sinto... (E crê que muita vez isto me vem á idéa) ... Ter nascido em Judá e não na Galiléa? Sou culpado de quê? De ter a pélle escura? De ter cabello negro? Isto é para censura?

MATHEUS conciliadôr:

Mas se elle já te disse...

UDAS

E eu digo que, em verdade, Prefiro lealmente o odio a esta amizade!

E volta aos seus pensamentos dominantes.

MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil:

Vinde ceiar, que são horas.

Não quereis?

SIMÃO PEDRA, aproveitando a inconsciente intervenção de Martha

Nem se duvída!

MARTHA

Pois deixae-vos de demoras,

Aliás vae-se a comida!

—Uma ceia improvisada

Mas nem por isso mesquinha,

Podeis crêr.

SIMÃO PEDRA

A caminhada

Que fizemos foi damninha...

Por aguçar o appetite.