Judas: romance lírico em quatro jornadas
JUDAS com affectada bonhomía:
Affastando-te assim dos nossos companheiros,
Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda.
E indicando a corda com que prende a tunica á cintura:
Somos na união eguaes a esta corda,
Que as estrigas de linho unidas fortemente
Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente.
Na sólida affeição, unificados, somos
Assim como n'um fructo os solidarios gommos.
—Desfia-se, porem, a corda, ao que parece;
E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...
UDAS com affectada bonhomía:
Chiméras, illusões...
OÃO
Talvez.—Mas quando penso
Que o teu profundo mal pode tornar immensoO crime, e que será
depois intempestivo
O arrependimento... Em summa, não me esquivo
A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha:
Nunca simpathisei comtigo; não se amanha
Com a tua frieza a ardencia do meu peito.
É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito
A observar-te.
UDAS
A mim?!
OÃO
E sabes o que vejo?
Que tens uma alma rude e instincto malfasejo!
UDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo indifferença:
Chiméras, illusões...
OÃO
Talvez.—Mas quem nasceu,
Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu
Por vasto cortinado; aquelle que na infancia
Aprendeu a olhar com summa repugnancia
Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre,
Muito melhor que tu ha de entender o Mestre.
Não podem comprehendel-o os rudes corações
Selvagens como o teu!
UDAS