Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 34 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

JUDAS com affectada bonhomía:

Affastando-te assim dos nossos companheiros,

Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda.

E indicando a corda com que prende a tunica á cintura:

Somos na união eguaes a esta corda,

Que as estrigas de linho unidas fortemente

Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente.

Na sólida affeição, unificados, somos

Assim como n'um fructo os solidarios gommos.

—Desfia-se, porem, a corda, ao que parece;

E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...

UDAS com affectada bonhomía:

Chiméras, illusões...

OÃO

Talvez.—Mas quando penso

Que o teu profundo mal pode tornar immensoO crime, e que será

depois intempestivo

O arrependimento... Em summa, não me esquivo

A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha:

Nunca simpathisei comtigo; não se amanha

Com a tua frieza a ardencia do meu peito.

É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito

A observar-te.

UDAS

A mim?!

OÃO

E sabes o que vejo?

Que tens uma alma rude e instincto malfasejo!

UDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo indifferença:

Chiméras, illusões...

OÃO

Talvez.—Mas quem nasceu,

Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu

Por vasto cortinado; aquelle que na infancia

Aprendeu a olhar com summa repugnancia

Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre,

Muito melhor que tu ha de entender o Mestre.

Não podem comprehendel-o os rudes corações

Selvagens como o teu!

UDAS