Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 49 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA que no limiar da porta ficára tambem indecisa:

 

Julguei ouvir falar...

UDAS

Aqui? Foi puro engano.

E notando um movimento esquivo de Maria:

Retiras-te de novo? Eu faço qualquer damno

Com a minha presença?

MARIA condescendente:

Oh! não...

UDAS caricioso:

Deixa-te pois

Ficar junto de mim, que facilmente os dois

Teremos na conversa um passatempo. Fica.

E mentalmente:

Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca.

Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do

primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a, apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se nitidamente o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos...

UDAS

Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar,

Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar,

Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto,

E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.

MARIA com simplicidade, avançando um pouco:

Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa

Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença.

Ao passo que me opprime este cruel receio

De vêr barafustar o nosso Mestre em meio

Dos inimigos seus, mais frio do que a neve

Se torna o meu olhar.

UDAS tôrvamente:

Deve ser isso, deve...

E depois de algum silencio, ironico:

Costumado a subir nos estos d'esse amor Aos mundos do Ideal, o candido fulgor Transforma-se em desdem, e apenas se descerra Perante a mesquinhez que roja pela terra!

O olhar bem fito n'ella, animando-se:

Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo, Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo, Brilha sinistramente e vem caír direito N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito!

N'um arranco d'alma:

Em verdade te digo, ó mulher altaneira, Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira, Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama, Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!

Crescendo em furia:

Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós Para que emfim termine este supplicio atroz! Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda,E vae saír de mim, como em torpel a onda,

Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido! —Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido, E deixa de cuidar n'essa paixão agora, Que é maior a paixão que todo me devora!

Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto:

Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar: É puro o teu amor, não é amor vulgar... Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida, No centro da minha alma em sangue e dolorída Existe uma paixão tambem que me envenena, Podendo ser mortal, assim como a gangrena...

Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a

roupagem:

Ah! no supremo arranco um peito esfacelado Como este, não receia o que haja mais sagrado, E julga-se capaz, co'o seu valor enorme, De luctar e vencer o ente mais disforme, Terrivel como Deus, gigante como Adão, Possuindo na voz as frases do trovão! E porque sinto aqui as contorsões finaes, Espando francamente as máculas brutaes, Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo: Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!