Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARIA que no limiar da porta ficára tambem indecisa:
Julguei ouvir falar...
UDAS
Aqui? Foi puro engano.
E notando um movimento esquivo de Maria:
Retiras-te de novo? Eu faço qualquer damno
Com a minha presença?
MARIA condescendente:
Oh! não...
UDAS caricioso:
Deixa-te pois
Ficar junto de mim, que facilmente os dois
Teremos na conversa um passatempo. Fica.
E mentalmente:
Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca.
Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do
primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a, apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se nitidamente o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos...
UDAS
Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar,
Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar,
Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto,
E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.
MARIA com simplicidade, avançando um pouco:
Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa
Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença.
Ao passo que me opprime este cruel receio
De vêr barafustar o nosso Mestre em meio
Dos inimigos seus, mais frio do que a neve
Se torna o meu olhar.
UDAS tôrvamente:
Deve ser isso, deve...
E depois de algum silencio, ironico:
Costumado a subir nos estos d'esse amor Aos mundos do Ideal, o candido fulgor Transforma-se em desdem, e apenas se descerra Perante a mesquinhez que roja pela terra!
O olhar bem fito n'ella, animando-se:
Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo, Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo, Brilha sinistramente e vem caír direito N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito!
N'um arranco d'alma:
Em verdade te digo, ó mulher altaneira, Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira, Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama, Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!
Crescendo em furia:
Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós Para que emfim termine este supplicio atroz! Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda,E vae saír de mim, como em torpel a onda,
Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido! —Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido, E deixa de cuidar n'essa paixão agora, Que é maior a paixão que todo me devora!
Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto:
Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar: É puro o teu amor, não é amor vulgar... Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida, No centro da minha alma em sangue e dolorída Existe uma paixão tambem que me envenena, Podendo ser mortal, assim como a gangrena...
Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a
roupagem:
Ah! no supremo arranco um peito esfacelado Como este, não receia o que haja mais sagrado, E julga-se capaz, co'o seu valor enorme, De luctar e vencer o ente mais disforme, Terrivel como Deus, gigante como Adão, Possuindo na voz as frases do trovão! E porque sinto aqui as contorsões finaes, Espando francamente as máculas brutaes, Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo: Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!