Judas: romance lírico em quatro jornadas
ELEAZAR, com o olhar vago:
E das lamentações sinceras, Jeremías?
Profeta Ezequiel, a tua voz potente
Jámais ribombará por todo o Oriente,
Fazendo estremecer o despota cezareo,
Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario,
Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma,
Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?!
ELEAZAR, com o olhar vago:
Vergonha! opprobrio!...
GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de enthusiasmo
civico:
Ai! desde que um idumeu
Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu,
E nos hombros depoz o manto purpurino...
Maldito! que deixaste um rasto viperino,
Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo,O teu nome recorda o
luto e um acervo
De horrores!—Certo dia, ousaste no portal
Da casa do Senhor dar poiso á immortalAguia romana!...—Vil,
nascido de idumeus,
O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus!
... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia!
—Do nome do tiranno o filho honra a memoria.
Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta...
Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?...
—Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros;
Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros,
Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia!
E ao passo que na morte o hebreu se contorcia,
E filhas e mulher's davam á luz o pranto,
O incendio voraz lavrava o Logar Santo!
—Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga,
Revolvendo o punhal na apodrecida chaga!
Seja procurador Coponio, ou seja Marco,
Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco
Onde vivem, senís, as rãs do servilismo...
É provincia romana; e viva o cezarismo!
E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando,
convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam.
ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:
Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor,
D'esta funda apathía e d'este grande horror!