Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 5 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

ELEAZAR, com o olhar vago:

E das lamentações sinceras, Jeremías?

Profeta Ezequiel, a tua voz potente

Jámais ribombará por todo o Oriente,

Fazendo estremecer o despota cezareo,

Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario,

Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma,

Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?!

ELEAZAR, com o olhar vago:

Vergonha! opprobrio!...

GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de enthusiasmo

civico:

Ai! desde que um idumeu

Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu,

E nos hombros depoz o manto purpurino...

Maldito! que deixaste um rasto viperino,

Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo,O teu nome recorda o

luto e um acervo

De horrores!—Certo dia, ousaste no portal

Da casa do Senhor dar poiso á immortalAguia romana!...—Vil,

nascido de idumeus,

O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus!

... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia!

—Do nome do tiranno o filho honra a memoria.

Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta...

Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?...

—Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros;

Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros,

Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia!

E ao passo que na morte o hebreu se contorcia,

E filhas e mulher's davam á luz o pranto,

O incendio voraz lavrava o Logar Santo!

—Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga,

Revolvendo o punhal na apodrecida chaga!

Seja procurador Coponio, ou seja Marco,

Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco

Onde vivem, senís, as rãs do servilismo...

É provincia romana; e viva o cezarismo!

E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando,

convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam.

ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:

Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor,

D'esta funda apathía e d'este grande horror!