Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 83 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

SIMÃO PEDRA que viera junto de João:

E que tiveste o condão

De abafar a voz do crime

Co'o soluço do perdão.

—Tambem eu ia levar-lhe

O meu pranto dolorido

Como nunca tive igual.

És a mulher que fugiu

Para o reino do Ideal...

A terra é muito mesquinha,

E o vôo da andorinha

Convida a voar tambem...

Cingindo com os braços Maria e Martha:

Partamos, sim, pela estrada Que nos conduz ao misterio.

Sorri ao longe a alvorada...

Vamos tranquillas, serenas,

Bater a cada poisada,

E sejam nossas palavras:

Levando-as comsigo docemente:

Vinde comnosco, mulheres,

Orvalhar co'o vosso pranto

A boceta em que dormita

Aquelle celeste encanto.

Ide colher á campina

Braçados de malmequeres,

De alfazema e rosmaninho...

E vão-se as trez pela estrada a caminho do sepulcro.

 

O firmamento agora é limpo. Raras estrellas brilham ainda. A luz da

madrugada define-se, e a brisa traz os perfumes dos vergeis e trigaes de

Gethsemani. Por um pequeno atalho cinco homens avançam para a cidade:

João, Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar e Simão de Bethania. Todos

denunciam no andar e no rosto o abatimento moral em que se encontram, a

irresolução, o receio. Chegados em frente da muralha:

SIMÃO PEDRA que viera junto de João:

Não entres na cidade...

ELEAZAR

És muito conhecido.

O Conselho não tem desviado o sentido Dos amigos do Mestre.

SIMÃO