Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 54 de 93

Páginas do PDF

Judas: romance lírico em quatro jornadas

CLAUDIA solta emfim um suspiro.

a sua escrava Geda. Ambas percorrem com o olhar cançado o por demais conhecido panorama.

CLAUDIA solta emfim um suspiro.

Dorme tudo na cidade.

Que silencio e que tristeza!...

GEDA

Tens então grande saúdade

De Roma?

CLAUDIA

Sim. Dizes bem:

É saúdade esta amargura,

Pois outro nome não tem

O que sinto na Judéa

Onde Poncio me exilou.

—Que horas podem ser? Vê lá.

GEDA vae ligeira ao candalabro; d'elle tira uma vella e dirige-se á clépsydra. Repõe

depois no seu logar a vella, e voltando para junto de Claudia:

Salvo engano, gottejou

A segunda hora de prima...

CLAUDIA

Por Saturno, é muito cedo,

Pois não é?

GEDA

Tambem eu cria

Ser mais tarde.

CLAUDIA boceja largamente.

Agora, em Roma,

Ouve-se ainda a folia

Da multidão buliçosa,

Que de toda a parte assoma,

Soltando ao vento a harmonía

Da sua voz descuidosa...

Vem Poncio, taciturno, e para a meza se encaminha, trazendo na mão

direita um escripto em papyro. É homem d'estatura mais do que regular, e de

idade viril. Rosto livre de pellos; o nariz aquilino; bôca breve, olhos negros e

vivos; curto cabello em curvas de frisados, testa larga onde as rugas bem se

ageitam. Alva a tunica e alvo o manto farto; sandalhas amarellas; mãos

carnudas. Sentou-se junto da meza, e o papyro consulta.

CLAUDIA indolente, para Geda:

Ali tens quem me trouxe para o exilio!

Se não dormem Plutão nem Proserpina,