Judas: romance lírico em quatro jornadas
GAMALIEL em doida alegria:
A doutrina do Mestre!
GAMALIEL em doida alegria:
Emfim!
OÃO cheio de ardente enthusiasmo messianico:
É meu o encargo!
O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora A escada de Jacob á luz da meiga aurora. Por ella vae subindo um côro triunfal Proclamando no Espaço o amor universal E a guerra sem clemencia ás abjecções e ao vicio. Ávante! Não desabe o sólido edificio
De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro Da palavra, caíndo em grande chuva de oiro, Enriqueça de novo a consciencia humana! Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana! Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia, Uma scentelha só do genio teu envia
Ao meu cerebro! Dá-me a força necessaria Que torne a minha voz da tua a emissaria! —Vamos, Gamaliel!
GAMALIEL como n'um grito de rebelião, avançando para a cidade:
Gloria ao profeta novo!
OÃO vibrantemente:
Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo!
Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de
GAMALIEL bradando:
Negra Jerusalem, escuta, ó assassina, D'aquelle que morreu a divinal doutrina!
E depois, mais distante:
Ouve, Jerusalem, que matas os profetas, As palavras que são do teu Senhor dilétas!
E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo cada vez
menos distinctos, á medida que o grupo se interna pelas estreitas e tortuosas
ruas da cidade.
No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fôra lançar o dinheiro
da traição, e quedou-se encostado á muralha junto ao angulo. D'ali ouvira as
ultimas palavras de João e os brados de Gamaliel.
UDAS com desdem:
«Gloria ao profeta novo!»—Insensatos! João, Vaes procurar a Morte! E eu... a expiação!
Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo
alguem que se approxima, recúa e estáca.
Maria?!