Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 88 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

GAMALIEL em doida alegria:

A doutrina do Mestre!

GAMALIEL em doida alegria:

Emfim!

OÃO cheio de ardente enthusiasmo messianico:

É meu o encargo!

O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora A escada de Jacob á luz da meiga aurora. Por ella vae subindo um côro triunfal Proclamando no Espaço o amor universal E a guerra sem clemencia ás abjecções e ao vicio. Ávante! Não desabe o sólido edificio

De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro Da palavra, caíndo em grande chuva de oiro, Enriqueça de novo a consciencia humana! Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana! Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia, Uma scentelha só do genio teu envia

Ao meu cerebro! Dá-me a força necessaria Que torne a minha voz da tua a emissaria! —Vamos, Gamaliel!

GAMALIEL como n'um grito de rebelião, avançando para a cidade:

Gloria ao profeta novo!

OÃO vibrantemente:

Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo!

Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de

GAMALIEL bradando:

Negra Jerusalem, escuta, ó assassina, D'aquelle que morreu a divinal doutrina!

E depois, mais distante:

Ouve, Jerusalem, que matas os profetas, As palavras que são do teu Senhor dilétas!

E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo cada vez

menos distinctos, á medida que o grupo se interna pelas estreitas e tortuosas

ruas da cidade.

 

No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fôra lançar o dinheiro

da traição, e quedou-se encostado á muralha junto ao angulo. D'ali ouvira as

ultimas palavras de João e os brados de Gamaliel.

UDAS com desdem:

«Gloria ao profeta novo!»—Insensatos! João, Vaes procurar a Morte! E eu... a expiação!

Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo

alguem que se approxima, recúa e estáca.

Maria?!