Judas: romance lírico em quatro jornadas
Gamaliel
Que poderá tornar-se em grande mar vermelho, Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!
OÃO
As espadas de Roma, as furias de Tiberio, Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio! O povo ha de gritar, raivoso, leonino, Rasgando a face impura ao despota assassino!
GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos olhos e
cahindo-lhe pelas barbas brancas:
Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto No livro da experiencia, amigos, que é de pranto A minha pobre offerta á causa alevantada! Vós não podeis brandir a rutilante espada; Nem elle, todo amor, consentiria nunca Na transfiguração do verbo em garra adunca. Parti, pois que é preciso apparecer ao povo, Mas fugide a que venha um incidente novo Aguçar ao tiranno o sanguinario intento. Entrae com desassombro a porta do aposento Onde finge dormir, silencioso, o crime; Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime O seu rancor feroz!
SIMÃO PEDRA tambem resoluto:
Seja o que Deus quizer!
OÃO
Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher, Pode esfriar em mim a indignação!
GAMALIEL
Piedade!
ELEAZAR
Vamos!
MATHEUS
Jerusalem!
SIMÃO
Coragem!
OÃO