Judas: romance lírico em quatro jornadas
João
Chiméras, illusões...
OÃO
Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres Supplícas com aspecto humilde uma parcella P'ra o Mestre!—Na verdade, é preciosa e bella Tanta dedicação! Provoca o elogío!
—Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío O teu olhar matreiro, o brilho da avareza A dar-lhe um tom sinistro?—Odeias a pobreza! Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!
UDAS avançando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o olhar
ameaçador:
João!
OÃO cruza os braços e sereno:
Podes bater, amigo! Por que esperas?
Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E João,
agora ainda mais excitado:
E chamas illusões! e vens chamar chiméras Ao que é verdade núa e positiva?!—Agora Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora; No actual momento em que até eu vacílo, Presentindo que não poderá ser tranquillo O futuro do Mestre e de nós todos, mudas Em odio declarado essa frieza, Judas?! Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso? Confessa que proveito, ou que terrivel goso Encontras n'essa infamia abjecta!
Desesperado pela indifferença apparente de Judas:
Que supplicio!
Não poder arrancar-te ao menos um indicio! Não poder descobrir a causa que assim léva O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva! Ah! não poder, depois do que disseste aqui, Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!
E senta-se, febril, n'uma das camilhas.
UDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente, diz-lhe emfim
com muita ironía: