Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 32 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Simão

Não; sahi,

Mas foi por pouco tempo.

SIMÃO PEDRA muito confidencial:

Então eis o motivo...

—Durante toda a noite esteve pensativo

E por mais d'uma vez fugiu-nos á conversa

Com palavras banaes e frias. Tão submersa

Tinha em meditações a alma, que ninguem

Deixou de perceber...

SIMÃO

Percebi eu tambem

Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto

A fiel expressão d'um intimo desgosto.

SIMÃO PEDRA

Maria, aquella honesta e bôa rapariga,

Desejando seguir a usança muito antiga

No povo do Senhor, a de render um preito

De sincera amizade e natural respeito

Ao viajante illustre a quem se dá guarida,

Abeirou-se da mesa, e, muito commovida,

Derramou sobre o Mestre um perfumado unguentoDe nardo puro.

Então, infame sentimento

De Judas se apodéra. Em vez de prazenteiro

E alegre como nós, aquelle companheiro

Reputado fiel, só tem uma censura

Para galardoar a prova de ternura:

—«Melhor fôra, elle diz, que esse custoso nardo

Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo,

Saberia guardar tambem zelosamente

A importancia da venda a todos pertencente,

Entregando-a depois em meu e vosso nome

Áquelles que teem frio e áquelles que teem fome.»

SIMÃO como assombrado:

Mas isso foi um insulto! E o mestre?

SIMÃO PEDRA

Respondeu

Brandamente, como é velho costume seu.

SIMÃO

Nem siquer suspeitaes a causa?