Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 92 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade:

Fica-me pôdre o craneo, e o peito fica em lôdo, Para ser tão nojenta a apparencia que eu tome, Que nem os proprios cães matem comigo a fome!

E apontando de novo, como um vidente:

O respirar opprésso... o corpo no madeiro... Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro... Exactamente!—Eléva os olhos para os ceus; A agonia final chegou: fala com Deus... A cabeça descae no peito: vae morrer...

E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna:

Ai! não! deixa-me em paz! Não! não! Não quero vêr!

E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, cáe de bruços no chão, o

rosto occulto nas mãos, gemendo, offegante.

MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade:

Insultáste-me ha pouco ainda. Eu tudo esquéço. Tenho a razão bem clara, e tu és um possésso. Quanto ao Mestre, lá tens em ti a accusação... A tua alma está sendo, ó torpe vendilhão, Passiva e sem vigor n'este fatal momento Assim como o enforcado a baloiçar ao vento... —Adeus.

E entra na cidade vagarosamente, sem olhar para traz.

 

Ha um grande silencio entrecortado apenas pelos gemidos mal suffocados

de Judas. Pouco a pouco, vão-lhe voltando as forças, e então

UDAS erguendo a cabeça e como acordado pela impressão que no seu espirito

deixaram as ultimas palavras de Maria:

«O enforcado?...»

E ergue-se com custo. Interrogando a sua consciencia:

Emfim para que existo?

Pensa. Tendo apoiado a mão direita na cintura, o contacto da corda com

que cinge a tunica desperta-lhe a attenção e aviva-lhe na memoria aquellas

palavras de João que elle repéte machinalmente:

«As estrigas de linho...»

E prevendo o effeito:

Um laço... um nó...

Resoluto:

—É isto!

Então, desatando a corda, dobrando-a em duas, formando um nó corredio,

vae monologando, febríl, nervosa, sêccamente:

Para que hei de fugir, ouvindo a cada instante

Correr atraz de mim um grito retumbante

E vingador? Fugir?... Sob o azul dos ceus

Quem pode combater a cólera de Deus?

Inda que fuja sempre, eu sempre retrocedo,

Porque é fugir do Eterno o mesmo que estar quedo!

Não fugirei!—Se fico, atrocidades cruas...Hei de ser arrastado

ahi por essas ruas,

Padecerei do povo horríficos flagellos:

Vir alguem arrancar-me os olhos, os cabellos,

E transformar em lama o corpo do homicida!

—Não! Prefiro morrer... por ter amor á vida!

De súbito, n'um grito de independencia, muito egoista:

Eu prefiro morrer! Que se escancáre o espaço

Da treva! Sim, ó Morte, eu quero o teu abraço!

A maldição eterna o Eterno em mim derrame-a!

Que importa! Serei grande até na propria infamia!

Allucinado novamente:

Odeio-te, Virtude! odeio-te, Verdade!

Renego do respeito e amor á Divindade!

Eu creio só na Morte... e basta-me esta corda!

E ri, ri convulso. Batendo com a mão no peito:

Álerta, monstro! Olá! monstro hediondo, accorda,

Para insultar a Vida, essa madrasta bruta,

Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta!

E tu, ó Mundo, pae d'este animal disforme,

Vem lançar-lhe no corpo o teu escarro enorme!

E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente.

 

É já manhã clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam

passarinhos não distante. No Templo começam os canticos matutinos, e as vozes das mulheres e das creanças chegam até nós em plangente e languida melodía. Calam-se de súbito os gorgeios e paira em todo o ambiente grande serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando.

João apparece á porta da cidade seguido por Gamaliel, Simão Pedra,

Eleazar, Simão de Bethania e por mulheres, homens e creanças. Caminham todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem João apenas com a tunica, descalso, a cabeça e o peito a descoberto, os braços cruzados, o olhar em extasi. Chegados á parte superior do pequeno oiteiro, João parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com os filhinhos ás cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no chão, já secco