Judas: romance lírico em quatro jornadas
JUDAS rindo febril:
P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo: O mundo é tão cruel que aleives não reprime, Se junto da virtude elle descobre o crime. Mas entretanto... foge!
UDAS rindo febril:
Acaso me suppões
Tão cobarde que vá fugir sem ter razões Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia?
MARIA
E se o Mestre voltar?
UDAS rindo:
Que doida fantasía!
MARIA
Se o visses novamente?
UDAS de subito receioso:
Eu? vêl-o?
MARIA
Sim!
UDAS
Não creio!
A morte é vasto abismo...
MARIA, dogmatica:
Abismo, cujo seio
Não poderá conter o que era illimitado!
UDAS acobardado:
Que dizes tu, mulher?!
MARIA em tom profetico:
Que dorme inanimado
O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio, Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário, Como o trabalhador que não requer salário E que só tem por fim realisar o plano De ha muito concebido. Em vão o olhar humano Procura descobrir o que existe no centro Do casúlo: o misterio é silencioso dentro.