Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 90 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

JUDAS rindo febril:

P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo: O mundo é tão cruel que aleives não reprime, Se junto da virtude elle descobre o crime. Mas entretanto... foge!

UDAS rindo febril:

Acaso me suppões

Tão cobarde que vá fugir sem ter razões Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia?

MARIA

E se o Mestre voltar?

UDAS rindo:

Que doida fantasía!

MARIA

Se o visses novamente?

UDAS de subito receioso:

Eu? vêl-o?

MARIA

Sim!

UDAS

Não creio!

A morte é vasto abismo...

MARIA, dogmatica:

Abismo, cujo seio

Não poderá conter o que era illimitado!

UDAS acobardado:

Que dizes tu, mulher?!

MARIA em tom profetico:

Que dorme inanimado

O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio, Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário, Como o trabalhador que não requer salário E que só tem por fim realisar o plano De ha muito concebido. Em vão o olhar humano Procura descobrir o que existe no centro Do casúlo: o misterio é silencioso dentro.