Judas: romance lírico em quatro jornadas
CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos triclinios de má nota da velha Roma:
Claudia é uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda não enrugou,
mas do qual fugiram as rosadas côres da mocidade, que a pintura e o artificio em vão tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica do deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de Tiberio, illustre messallina—lassata, sed non satiata. A tunica azul celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base do tronco esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe enroscam na carne, refulge no ebano de seus cabellos, e dá-lhe a majestade olympica do perfil das medalhas de Agrippina.
CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos triclinios de má
nota da velha Roma:
Muito bem!
Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio,
dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irmã; mas á porta detem-se.
Que formosa poesia
Cheia de amor e de melancolia!
Ha quem diga no Lácio
Que é impossivel encontrar primores
Que não sejam de Ovidio nos «Amores»
Nos «Epodos» de Horacio...
—É que ninguem conhece quanto val'
A doce poesia oriental!
—Isso é de Salomão?
MARTHA muito a mêdo:
Senhora...
CLAUDIA
Pois eu sou tão lisongeira,
Para ouvir-te apeei-me da liteira...
E foges?—A razão?
E como não colhesse resposta, prosegue sardonicamente:
Tambem me odeias, tu, gentil creança?
—Quando ha de fazer-se uma alliança
Entre Roma e Judéa?
Ganhariamos todos, com certeza:
Nós, simpathia; vós, delicadeza.
Darei a Poncio a idéa.
Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios
contraídos e os punhos cerrados: