Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 15 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos triclinios de má nota da velha Roma:

Claudia é uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda não enrugou,

mas do qual fugiram as rosadas côres da mocidade, que a pintura e o artificio em vão tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica do deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de Tiberio, illustre messallina—lassata, sed non satiata. A tunica azul celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base do tronco esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe enroscam na carne, refulge no ebano de seus cabellos, e dá-lhe a majestade olympica do perfil das medalhas de Agrippina.

 

CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos triclinios de má

nota da velha Roma:

Muito bem!

Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio,

dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irmã; mas á porta detem-se.

Que formosa poesia

Cheia de amor e de melancolia!

Ha quem diga no Lácio

Que é impossivel encontrar primores

Que não sejam de Ovidio nos «Amores»

Nos «Epodos» de Horacio...

—É que ninguem conhece quanto val'

A doce poesia oriental!

—Isso é de Salomão?

MARTHA muito a mêdo:

Senhora...

CLAUDIA

Pois eu sou tão lisongeira,

Para ouvir-te apeei-me da liteira...

E foges?—A razão?

E como não colhesse resposta, prosegue sardonicamente:

Tambem me odeias, tu, gentil creança?

—Quando ha de fazer-se uma alliança

Entre Roma e Judéa?

Ganhariamos todos, com certeza:

Nós, simpathia; vós, delicadeza.

Darei a Poncio a idéa.

Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios

contraídos e os punhos cerrados: