Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 64 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

HANAN muito supplicante a Poncio:

Experimenta.

HANAN muito supplicante a Poncio:

Senhor, ouve as razões que este homem apresenta: Conhece o Nazareno, e sabe tudo...

PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia:

Vá.

Pode falar, mas bréve.

UDAS avança até á presença de Poncio. Saúdou-o, e muito senhor de si, firme,

resoluto, assim começa:

Eu nasci em Judá.

Odeio a Galiléa, e, sempre respeitoso,Me curvei de Tibério ao vulto majestoso.

—Engana-te, senhor, aquelle que disser Que o profeta de quem falou Hanan requer, Como acabei de ouvir, as attenções do povo Para o império de Roma.

PONCIO estremeceu, carregou o semblante:

O quê?

UDAS com sinceridade hypocrita:

Não me demôvo

De dizer a verdade, inda que soffra o peso Do remorso, indicando um amigo indefeso Á justiça de Roma e do Conselho! Brado Em voz altisonante: Ó Poncio, és enganado! O Profeta conspira, em intimo rancor, Contra a lei de Moysés e contra o vencedor! —De tal conspiração confio-te o segredo...

Approximou-se mais de Poncio, que continúa assentado, e fala-lhe agora,

insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se até á curva da

cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e fixo em um

ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sáem dos labios de

Judas como subtil veneno.

Porque abate no mar, ás vezes, um rochedo Austero, alcantilado, enorme?—Toda a gente Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente, Que do seu dormitar ninguem o accordaria, Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu... Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu, Barafustou no espaço, e com fragor medonho