Judas: romance lírico em quatro jornadas
HANAN muito supplicante a Poncio:
Experimenta.
HANAN muito supplicante a Poncio:
Senhor, ouve as razões que este homem apresenta: Conhece o Nazareno, e sabe tudo...
PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia:
Vá.
Pode falar, mas bréve.
UDAS avança até á presença de Poncio. Saúdou-o, e muito senhor de si, firme,
resoluto, assim começa:
Eu nasci em Judá.
Odeio a Galiléa, e, sempre respeitoso,Me curvei de Tibério ao vulto majestoso.
—Engana-te, senhor, aquelle que disser Que o profeta de quem falou Hanan requer, Como acabei de ouvir, as attenções do povo Para o império de Roma.
PONCIO estremeceu, carregou o semblante:
O quê?
UDAS com sinceridade hypocrita:
Não me demôvo
De dizer a verdade, inda que soffra o peso Do remorso, indicando um amigo indefeso Á justiça de Roma e do Conselho! Brado Em voz altisonante: Ó Poncio, és enganado! O Profeta conspira, em intimo rancor, Contra a lei de Moysés e contra o vencedor! —De tal conspiração confio-te o segredo...
Approximou-se mais de Poncio, que continúa assentado, e fala-lhe agora,
insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se até á curva da
cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e fixo em um
ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sáem dos labios de
Judas como subtil veneno.
Porque abate no mar, ás vezes, um rochedo Austero, alcantilado, enorme?—Toda a gente Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente, Que do seu dormitar ninguem o accordaria, Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu... Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu, Barafustou no espaço, e com fragor medonho