Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 16 de 93

Páginas do PDF

Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA por entre dentes:

Conheces-me tambem?

MARIA por entre dentes:

Perfeitamente.

CLAUDIA

Se não me engano, a tua alma sente

Por mim o mesmo affecto...

Mas que mal vos fiz eu? Por ser casada Com Poncio, devo estar acorrentada

A um odio tão directo?

MARIA fitando-a resoluta, mas serena:

É que tu desconheces o rancor

Que tem toda a Judéa ao vencedor!

Fossem mil as nações

Caídas sobre nós! Odio profundo

Teriamos então a todo o mundo

E ás suas gerações!

—Ninguem pediu que ouvisses o falar

Da minha irmã. De mais, vindo escutar

Fizeste muito mal...

És Claudia; quer dizer: alguma coisa

Que nos merece tédio, e que repoisa

Sobre um vil pedestal

Todo feito de lama e impudicicia!

Justamente porque és uma patricia

Deves ter o criterio

De não brincar co'as cinzas ainda quentes, Porque nós detestamos intendentes

E amantes de Tiberio!

 

Dois soldados olham rapidos para Claudia e logo n'um movimento

impulsivo de mercenarios servis apoderam-se de Maria, que não resiste.

Martha soltou um grito; succedeu-lhe longo silencio interrompido apenas pelo

murmurio da agua e pelo chôro suffocado de Martha, que não desamparou a

irmã.

CLAUDIA deixando cair as palavras uma a uma, como gôtas de chumbo derretido:

Terrivel quando odeio, e meiga quando estimo. A todo o sentimento o da maldade encimo, Se acaso á minha face o insulto e o desdem

Me forem arrojados por alguem!

Uma frase, um olhar—tanto me basta; Pois como sou nervosa, em mim logo se engasta,