Judas: romance lírico em quatro jornadas
CLAUDIA adormecida, vagamente:
Que se formou por encanto
Do arrependido pranto
Da mãe Eva arrependida...
—Parece mesmo que o vejo
No seu manto azul. Dir-se-ia
Que o firmamento amoroso
Teve a alegre fantasía
De enviar á terra um beijo
Puro, suave, bondoso...
Parece mesmo que o vejo.
—É seu olhar calmo e doce;
A tudo o mais fica estranho,
Quando distingue o fulgor
Dos astros, como se fosse
O cuidadoso pastor
Do scintillante rebanho...
CLAUDIA adormecida, vagamente:
É seu olhar calmo e doce...
MARIA continuando alheiada a tudo:
Tem o brilho das seáras
O cabello perfumado,
Que nos hombros lhe descansa
E lhe cerca as faces claras.
É tão formoso e doirado
Como um sorrir de creança...
CLAUDIA adormecida, vagamente:
Tem o brilho das searas
Seu cabello perfumado...
MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada:
Mais uma vez perdão te peço. Eu vou sahir E não perturbarei, ó Claudia, o teu dormir. Reconheço por fim que era a esperança fátua. É inutil chorar em frente d'uma estátua... —Retiro-me vencida, assim como o pagão, Que dedicou á Sphinge, ardentemente e em vão, Os gritos da sua alma e os canticos do amor. Podes dormir risonha: eu levo a minha dôr!
E com a cabeça descaída sobre o peito, dirige-se para o terraço em passos
vagarosos, como se fôra a caminho da morte, com o negro véo pendente ao
longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida escadaria.