Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 73 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

CLAUDIA adormecida, vagamente:

Que se formou por encanto

Do arrependido pranto

Da mãe Eva arrependida...

—Parece mesmo que o vejo

No seu manto azul. Dir-se-ia

Que o firmamento amoroso

Teve a alegre fantasía

De enviar á terra um beijo

Puro, suave, bondoso...

Parece mesmo que o vejo.

—É seu olhar calmo e doce;

A tudo o mais fica estranho,

Quando distingue o fulgor

Dos astros, como se fosse

O cuidadoso pastor

Do scintillante rebanho...

CLAUDIA adormecida, vagamente:

É seu olhar calmo e doce...

MARIA continuando alheiada a tudo:

Tem o brilho das seáras

O cabello perfumado,

Que nos hombros lhe descansa

E lhe cerca as faces claras.

É tão formoso e doirado

Como um sorrir de creança...

CLAUDIA adormecida, vagamente:

Tem o brilho das searas

Seu cabello perfumado...

MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada:

Mais uma vez perdão te peço. Eu vou sahir E não perturbarei, ó Claudia, o teu dormir. Reconheço por fim que era a esperança fátua. É inutil chorar em frente d'uma estátua... —Retiro-me vencida, assim como o pagão, Que dedicou á Sphinge, ardentemente e em vão, Os gritos da sua alma e os canticos do amor. Podes dormir risonha: eu levo a minha dôr!

E com a cabeça descaída sobre o peito, dirige-se para o terraço em passos

vagarosos, como se fôra a caminho da morte, com o negro véo pendente ao

longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida escadaria.