Judas: romance lírico em quatro jornadas
GAMALIEL, n'um clarão de esperança:
Judéa, serás livre! Elias não morreu, Porque revive n'um que tem o verbo seu, E elle ha de trazer a guerra e o exterminio! Se é branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!... Abaterás o orgulho, o despotismo, a infamia! O povo quer vingança atroz: pois bem, derrame-a Sem minimo temor da colera dos ceus!
GAMALIEL, n'um clarão de esperança:
Já temos o preciso: um Homem!
MARIA, que tinha saído de casa e que ouviu as ultimas palavras:
Não!—Um Deus!
Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser
tambem as suas tranças occultas a olhares mundanaes. As roupagens
escuras, que lhe descem até aos pés, cáem suavemente em prégas
regulares e castas como as de Suzanna. O seu olhar é sempre vago e
tranquillo; os seus gestos sempre em accordo com as serenas emoções da
alma.
É bello o teu falar, mas como de cegueira Pelo amor patrio estás vencido! De maneira Que apenas bastaria um pulso valoroso Para despedaçar o monstro ambicioso
De fausto e de poder que se revolve além, N'aquella babylonia? Então, Jerusalem, Movida por um braço, embora resoluto, Poderia colher o ambicionado fructo
Da plena liberdade em meio da revolta? —Vae longe, muito longe, o tempo... que não volta! A Judéa prefére a honra em mil pedaços, Cheia de timidez, crusando inerme os braços, Inhabil para a lucta e com horror á morte... A tribu de Levy, aquella cujo porte,
Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria Coragem ao vencido e alguma simpathia Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo. —Onde encontraste, irmão, o excitante novo, Que possa dar alento a quem succumbe exangue, Que os nervos fortaleça e retempére o sangue?
GAMALIEL
Ha sempre em casos taes...
ELEAZAR
a força d'um athleta!