Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 50 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA que não se moveu, serenamente:

Grande e soberbo, de braços abertos, espéra.

MARIA que não se moveu, serenamente:

Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas;

Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.

UDAS n'um rugido:

Maria!

MARIA sempre immovel:

Com franqueza, eu disse-te por vezes:Em castidade egual

ás innocentes rezes

No Templo do Senhor dadas em sacrificio,

Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio,

Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha

Acrisolado amor, amor... como de filha.

Na terra nada mais preciso que uma coisa:

A Crença.

Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal: O meu amor longe d'aqui repoisa,

Estrella que não teme as nuvens tempestuosas.

Brando como o dormir das aguas silenciosas,

Vago como o misterio enorme do futuro,

Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro,

Nos espaços do azul vive risonho e inerme.

A estrella é sempre estrella...

Descendo o olhar para Judas:

e o verme é sempre verme.

UDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:

Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor,

Fugindo á grande lei do grande Creador,

Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre

Para tornar assim fecundo o estéril ventre!

MARIA sem se perturbar:

Enlouqueceste!

UDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto dolorido,

n'um queixume:

Mas se eu nunca fui amado!

Assim como o terreno a que não chega o arado,

Semelhante em mudez ás pedras do caminho,

Era o meu coração. Via-me tão sósinho,

Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus, Interrogava o Espaço, interrogava Deus, Procurava arrancar ás trevas o motivo De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.