Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARIA que não se moveu, serenamente:
Grande e soberbo, de braços abertos, espéra.
MARIA que não se moveu, serenamente:
Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas;
Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.
UDAS n'um rugido:
Maria!
MARIA sempre immovel:
Com franqueza, eu disse-te por vezes:Em castidade egual
ás innocentes rezes
No Templo do Senhor dadas em sacrificio,
Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio,
Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha
Acrisolado amor, amor... como de filha.
Na terra nada mais preciso que uma coisa:
A Crença.
Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal: O meu amor longe d'aqui repoisa,
Estrella que não teme as nuvens tempestuosas.
Brando como o dormir das aguas silenciosas,
Vago como o misterio enorme do futuro,
Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro,
Nos espaços do azul vive risonho e inerme.
A estrella é sempre estrella...
Descendo o olhar para Judas:
e o verme é sempre verme.
UDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:
Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor,
Fugindo á grande lei do grande Creador,
Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre
Para tornar assim fecundo o estéril ventre!
MARIA sem se perturbar:
Enlouqueceste!
UDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto dolorido,
n'um queixume:
Mas se eu nunca fui amado!
Assim como o terreno a que não chega o arado,
Semelhante em mudez ás pedras do caminho,
Era o meu coração. Via-me tão sósinho,
Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus, Interrogava o Espaço, interrogava Deus, Procurava arrancar ás trevas o motivo De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.