Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 75 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Em 15 de Nisan

 

QUARTA JORNADA

 

EM 15 DE NISAN

 

Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de

Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á

indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam

mansamente.

Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas

parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz, corpos

sem vida de suppliciados.

Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural

caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro.

Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde

os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas.

Junto ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.

Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os

penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco, argiloso e

triste.

Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de

quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente.

A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.

 

O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado romano que

é Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são

Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram

reforçadas na vespera por ordem de Poncio.