Judas: romance lírico em quatro jornadas
Em 15 de Nisan
QUARTA JORNADA
EM 15 DE NISAN
Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de
Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á
indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam
mansamente.
Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas
parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz, corpos
sem vida de suppliciados.
Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural
caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro.
Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde
os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas.
Junto ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.
Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os
penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco, argiloso e
triste.
Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de
quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente.
A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.
O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado romano que
é Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são
Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram
reforçadas na vespera por ordem de Poncio.