Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARTHA com muita convicção:
Ao despertar depois, quem reacende
No cerebro o fulgor que relampeja?
Quem é que nos dá vida ou que a suspende
A seu prazer?
MARTHA com muita convicção:
É Deus...
UDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo:
Talvez que seja.
MARTHA surpreza:
Talvez?!
Muito baixinho ao ouvido da irmã:
Extranho o Judas!
UDAS
Sim, talvez;
Porque não julgo prova de criterio,
Antes se me affigura insensatez,
Explicar um segredo co'um misterio.
MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção,
melodiosamente:
Anda a tua alma fugida
Ao bom caminho da crença... Quem foi que d'elle a
affastou
E que dentro em ti deixou
Uma escuridão immensa?
Hontem á noite... (Desculpa
Se acaso te contrarío
Ao falar agora d'isto)
Por todos nós foi mal visto,
Judas, o teu desvarío.
De tão modesta homenagem
Não era merecedor
Aquelle Mestre sublime
Em cujo rosto se exprime
A bondade e o amor?
—Anda a tua alma fugida
Ao bom caminho da crença.
Que Deus de novo a conduza
E o brilho reproduza
Na tua alma, treva immensa!