Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 44 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARTHA com muita convicção:

Ao despertar depois, quem reacende

No cerebro o fulgor que relampeja?

Quem é que nos dá vida ou que a suspende

A seu prazer?

MARTHA com muita convicção:

É Deus...

UDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo:

Talvez que seja.

MARTHA surpreza:

Talvez?!

Muito baixinho ao ouvido da irmã:

Extranho o Judas!

UDAS

Sim, talvez;

Porque não julgo prova de criterio,

Antes se me affigura insensatez,

Explicar um segredo co'um misterio.

MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção,

melodiosamente:

Anda a tua alma fugida

Ao bom caminho da crença... Quem foi que d'elle a

affastou

E que dentro em ti deixou

Uma escuridão immensa?

Hontem á noite... (Desculpa

Se acaso te contrarío

Ao falar agora d'isto)

Por todos nós foi mal visto,

Judas, o teu desvarío.

De tão modesta homenagem

Não era merecedor

Aquelle Mestre sublime

Em cujo rosto se exprime

A bondade e o amor?

—Anda a tua alma fugida

Ao bom caminho da crença.

Que Deus de novo a conduza

E o brilho reproduza

Na tua alma, treva immensa!