Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 53 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Terceira Jornada

Não!!

E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos

campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um

lirio d'Issachar...

 

TERCEIRA JORNADA

EM 13 DE NISAN

TERCEIRA JORNADA

 

EM 13 DE NISAN

 

Na quadra principal da Torre Antonia, moradia do procurador Poncio Pilado,

tudo é silencioso, embora a noite só agora acabe de tombar.

Assenta o elevado tecto em dez columnas não distantes das paredes; é de

mosaico branco e preto o chão marmoreo. Duas portas fronteiras

communicam, uma para os aposentos de Claudia e Poncio, outra para as

diversas dependencias da Torre. N'uma das paredes abre-se amplamente,

achegado um pouco para o angulo, um arco de elegante curvatura, que dá

para um terraço resguardado de formosa balaustrada. Comprida escadaria

d'ali conduz ao andar inferior e ao vestibulo. No centro geometrico da quadra,

ergue-se um busto de guerreiro: é de marmore branco o pedestal; de roseo o

busto, em cuja base lêmos, em caracteres romanos esculpida, a legenda:

Tiberius Claudius Nero, Imp. Das portas ha pendentes reposteiros de azul e

oiro. É da mesma fazenda o reposteiro que está ornando o arco e repuxado

junto ao angulo. Fitando nós o busto de Tiberio, temos sobre a direita larga

meza de citrus, onde ardem n'um bronzeo candalabro trez vellas de cêra e

pez; e perto d'ella vemos uma cadeira d'estofado, de braços longos, costas

amplas e recurvas; á nossa esquerda, perto das columnas, coxim de bronze

com embutidos de tartaruga e trez almofadas de lavor riquissimo; não

distante, no chão, está estendida grande pelle de leão do Atlas. Um armario

de ébano macisso alonga-se na parede junto ao arco e sobre elle se ostenta

graciosa clepsydra de bronze, onde um Éros aponta com a flécha a escala

das horas que decorrem.

Entre as columnas, pendem das paredes, panoplias de couraças,

capacetes, escudos e adagas. Encostado ao pedestal do busto de Tiberio, o

pilo de oiro cinzelado.

Ha um misto de indecisa luz em toda a quadra: amarellada a que as vellas

espargem frouxamente, côr de prata a que o chão do terraço reenvia e que a

Lua derrama das alturas. A cidade dormita lá em baixo; e o luar, banhando as

casarías, dir-se-ía illuminar uma necropole.

 

No coxim do terraço está Claudia reclinada. A tunica é de lã; escura e longa

a estóla. Tem os braços cobertos pelas mangas da segunda tunica, e é

branca a facha que os cabellos lhe prende em élos brandos. Perto de Claudia