Judas: romance lírico em quatro jornadas
GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João. Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova terrivel.
Não tens portanto uma unica esperança Em ver surgir a aurora promettida?
—Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto Do Profeta, que vamos afinal
Assistir ao enorme vendaval,
Que ha de causar a todo o mundo espanto! Da Lei não ficará nem uma linha,
E as pedras do Templo hão de cahir! Eu antevejo, amigos, o porvir,
Que de instante a instante se avisinha! Como cães a ulular, de toda a parte Hão de saír as abominações!
Entre espadas de fogo e maldições,
Vae tremular um sólido estandarte!
Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus Ribombará como um trovão gigante,
E o vento ha de levar para distante, Onde não haja terra, mar, ou ceus,
As ultimas parcellas do monturo
A que chamamos hoje humanidade!
Álerta! vae rugir a tempestade!
—Confia em Deus! Espera no futuro!
Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza:
Gamaliel?!
GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João. Traz o
rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova terrivel.
Eu proprio. E vejo que cheguei
A tempo de lembrar que existe de uma Lei A rispida crueza, a inquebrantavel força, E que por mais que a tua exaltação retorça O positivo, elle ha de emfim prevalecer! Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder. —O perigo é enorme.
Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:
Ouvide: Nicodemo,
Um homem de honradez e que respeita em estremo O vosso Mestre, não me occulta o que se passa A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça, Fazendo-se abortar o plano vingador!
ODOS em sobresalto:
Um plano?!
OÃO