Judas: romance lírico em quatro jornadas
GAMALIEL avançando para elle nervosamente:
Macieiras em flôr; regatos que passaes, Ondeando, como ondeia á brisa, levemente,Da aldeã virginal a trança refulgente...
Montanhas de Nain; e tu, ó grande monte, Que te elevas no fundo azul do horisonte, Redondo como um seio a amamentar os astros... Meigo Genezareth, campos, cabanas, mastros, Rochedos, alcantís, seáras e pastagens, Que bordam a primor tuas alegres margens... —Eis aqui finalmente a horrivel derrocada! A solida affeição dos Dôse feita em nada; A cegueira vencendo; a Luz amortecida; A tripudiar em nós um ladrão homicida; E eu, no meio de tudo, extactico e absôrto, Buscando o olhar de Deus na pallidez d'um morto!... —E assim tudo acabou!
GAMALIEL avançando para elle nervosamente:
Quem fala de acabar?
O fogo ainda não se extinguiu no altar Da nossa consciencia, e os rubros holocaustos Onde fomos depôr as almas ainda exhaustos Não deixaram de todo os nossos corações!
OÃO desanimado:
Que havemos de fazer?...
GAMALIEL animando-se e animando-o:
Povos, religiões,
Autoridades, leis, é tudo movediço
E débil como ao sôpro um tímido aranhiço!
SIMÃO PEDRA
Queres dizer então...
ELEAZAR
A lucta?!
GAMALIEL
Braço a braço,
Não se deve luctar. Seria um erro crasso Instituir o Bem co'o ferro. Não! Deixae Esse erroneo principio aos filhos de Schammai!
OÃO erguendo-se:
O que pensas?