Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 61 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

PONCIO, serenamente, mas deixando accentuado o seu desdem, aquelle desdem dos romanos pelos povos vencidos:

Procure lealmente ao povo garantir

A crença de Moysés, agora e no porvir.

PONCIO, serenamente, mas deixando accentuado o seu desdem, aquelle desdem

dos romanos pelos povos vencidos:

Não sei do que se trata, Hanan; mas sempre digo

Uma coisa que eu penso ha muito a sós comigo:

Do leito has de saír com mais celeridade

Para zelar melhor a tua propriedade,

E com menos se alguem te fôr dizer, de rastros,

Que descobriu no ceu ladrões roubando os astros.

HANAN offendido, elevando a voz:

Duvídas de que seja o meu falar sincero?

Julgas que estou mentindo, e em nada considero

A minha crença?

PONCIO olhando para elle de fito, severamente:

Olá!...

HANAN matreiro:

Desculpa-me. Prometto

Não me exaltar de novo, ó Poncio.

PONCIO sem desviar d'elle o olhar:

O mel do Hymetto

Agrada a toda a gente... e fica bem na fala.

HANAN muito submisso:

Dou-te razão; mas vê que dôr nenhuma eguala

A dôr que sinto. E não terei motivo? Escuta:

Aquella sã doutrina, a doutrina impolutaQue nos deixou Moysés,

o grande fundador

Da nação, que livrou das garras do oppressor

O povo escravisado, e que á ditosa grei

Legou, depois da Fuga, um Deus e Patria e Lei!

A doutrina sublime, erario de virtudes,

Que tem ficado illesa ainda nas mais rudes

Provações...

PONCIO cortando a harenga, novamente em tom sarcastico:

Vaes falar d'alguem profeta novo,

Que anda por'hi talvez a amotinar o povo

Contra os amigos teus?—Pois hei de protegel-o.

Apraz-me não tocar nem siquer n'um cabello

D'esse homem.