Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 70 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, não reprime o seu assombro.

Maria de Bethania?! O quê? Pois tu

Ousaste vir aqui? Pois desafías

Com a tua presença o meu rancor?

Tens a loucura, a falta de criterio,

De brincar com as cinzas inda quentes?

MARIA baixou a fronte; e a meia voz:

Perdôa-me, Senhora...

CLAUDIA

O que fizeste

Da altivez soberana e do teu odio?

MARIA

Perdôa-me, senhora. Quem se humilha,

É porque tudo esquece, e quem supplíca

O perdão d'uma offensa, tem direito

A ser ouvida...

CLAUDIA encostando-se á meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua

figura:

Apraz-me isso que dizes.

Tu propria te encarregas de vingar-me.

Optimamente!—O que é que tu me queres?

MARIA com meiguice:

Nunca viste, depois da tempestade,

Quando vem a bonança,

Resplandecer de luz na immensidade

O Arco da Alliança?

Pois que venha, senhora, em tal momento,

Um meigo olhar bondoso

Alegrar do teu rosto o firmamento

Como o divino traço luminoso.

CLAUDIA com uma risada:

Não faças poesia, que Virgilio

Mandou lançar a sua Eneida ao fogo!

Começas muito mal. Por um idilio!...

Do teu poema a sorte pões em jogo...

MARIA docemente:

Na ironia cruel quanta amargura!

Esta hora é suprema.

Vou falar-te d'um ser todo candura...