Judas: romance lírico em quatro jornadas
CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, não reprime o seu assombro.
Maria de Bethania?! O quê? Pois tu
Ousaste vir aqui? Pois desafías
Com a tua presença o meu rancor?
Tens a loucura, a falta de criterio,
De brincar com as cinzas inda quentes?
MARIA baixou a fronte; e a meia voz:
Perdôa-me, Senhora...
CLAUDIA
O que fizeste
Da altivez soberana e do teu odio?
MARIA
Perdôa-me, senhora. Quem se humilha,
É porque tudo esquece, e quem supplíca
O perdão d'uma offensa, tem direito
A ser ouvida...
CLAUDIA encostando-se á meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua
figura:
Apraz-me isso que dizes.
Tu propria te encarregas de vingar-me.
Optimamente!—O que é que tu me queres?
MARIA com meiguice:
Nunca viste, depois da tempestade,
Quando vem a bonança,
Resplandecer de luz na immensidade
O Arco da Alliança?
Pois que venha, senhora, em tal momento,
Um meigo olhar bondoso
Alegrar do teu rosto o firmamento
Como o divino traço luminoso.
CLAUDIA com uma risada:
Não faças poesia, que Virgilio
Mandou lançar a sua Eneida ao fogo!
Começas muito mal. Por um idilio!...
Do teu poema a sorte pões em jogo...
MARIA docemente:
Na ironia cruel quanta amargura!
Esta hora é suprema.
Vou falar-te d'um ser todo candura...