Judas: romance lírico em quatro jornadas
GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:
Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: Jehovat. A Torre Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta quietação.
Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o
carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando no firmamento azul e alegre.
Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que
entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as cotovias.
GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas
doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:
Eleazar, meu caro, honrado ebionita,
Recebe de um amigo a cordeal visita.
ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos annos,
franzino e melancólico.
És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja
Teus passos dirigiu assim, para que eu veja
Á porta do modesto e humilde lavrador
Aquelle que possue o nome de doutor
Notavel e profundo?
GAMALIEL
É pobre a moradia,
Amigo?—Não encerra a vil hypocrisia,
Ornamento dos maus e da nefanda casta,
Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.
ELEAZAR
É que a virtude leva ás almas refrigerio
Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio;
Pranto suave, meigo e virginal e ardente,
Que uma estrella chorou silenciosamente...
GAMALIEL
É que a bondade espalha a sua luz divina
E pura, como o Sol que a todos illumina...
E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se conservou: