Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 3 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:

Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: Jehovat. A Torre Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta quietação.

Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o

carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando no firmamento azul e alegre.

Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que

entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as cotovias.

GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas

doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:

Eleazar, meu caro, honrado ebionita,

Recebe de um amigo a cordeal visita.

ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos annos,

franzino e melancólico.

És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja

Teus passos dirigiu assim, para que eu veja

Á porta do modesto e humilde lavrador

Aquelle que possue o nome de doutor

Notavel e profundo?

GAMALIEL

É pobre a moradia,

Amigo?—Não encerra a vil hypocrisia,

Ornamento dos maus e da nefanda casta,

Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.

ELEAZAR

É que a virtude leva ás almas refrigerio

Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio;

Pranto suave, meigo e virginal e ardente,

Que uma estrella chorou silenciosamente...

GAMALIEL

É que a bondade espalha a sua luz divina

E pura, como o Sol que a todos illumina...

E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se conservou: