Judas: romance lírico em quatro jornadas
ELEAZAR, depois de grande hesitação:
Escuta, Simão Pedra: Ás furias do Conselho
Não curvareis, talvez, humildes, o joelho?...
SIMÃO PEDRA
Nunca!
ELEAZAR
Nem fugireis?
OÃO que se erguera, rapido e violento:
Nenhum de nós!
Judas sae de casa de Simão e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte.
Bem o viu João: mas, dissimulando, continúa ainda mais violento, e, dando ás palavras uma intenção reservada:
Nenhum...
Dos que têem do Mestre a patria por commum!
Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios
Nunca hão de vacilar perante os sacrificios.
Se acaso o Mestre fôr levado de vencida,
Qualquer de nós dará por elle a propria vida!
Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, André,
Thaddeu, Nathaniel, Simão, Matheus, Thomé,
Iago, o publicano, ou Simão Pedra?—Não!
Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmão?
—Vês pois, Eleazar, qual seja o nosso intento.
UDAS
Não falaste de mim...
OÃO muito secco e terminante:
Por méro esquecimento.
E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicação.
ELEAZAR ao ouvido de Simão Pedra:
Pareceu-me o contrario...
SIMÃO PEDRA triste e confidencial:
É sempre assim co'o Judas...
Judas tem quando muito trinta e dois annos. É um homem em toda a força
da vida, conformação máscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde é, e qual a côr dos seus cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada; pélle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de fórma notavel contrasta da MARTHA intimativamente, retirando-se da janella: