Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 23 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

ELEAZAR, depois de grande hesitação:

Escuta, Simão Pedra: Ás furias do Conselho

Não curvareis, talvez, humildes, o joelho?...

SIMÃO PEDRA

Nunca!

ELEAZAR

Nem fugireis?

OÃO que se erguera, rapido e violento:

Nenhum de nós!

Judas sae de casa de Simão e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte.

Bem o viu João: mas, dissimulando, continúa ainda mais violento, e, dando ás palavras uma intenção reservada:

Nenhum...

Dos que têem do Mestre a patria por commum!

Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios

Nunca hão de vacilar perante os sacrificios.

Se acaso o Mestre fôr levado de vencida,

Qualquer de nós dará por elle a propria vida!

Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, André,

Thaddeu, Nathaniel, Simão, Matheus, Thomé,

Iago, o publicano, ou Simão Pedra?—Não!

Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmão?

—Vês pois, Eleazar, qual seja o nosso intento.

UDAS

Não falaste de mim...

OÃO muito secco e terminante:

Por méro esquecimento.

E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicação.

ELEAZAR ao ouvido de Simão Pedra:

Pareceu-me o contrario...

SIMÃO PEDRA triste e confidencial:

É sempre assim co'o Judas...

 

Judas tem quando muito trinta e dois annos. É um homem em toda a força

da vida, conformação máscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde é, e qual a côr dos seus cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada; pélle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de fórma notavel contrasta da MARTHA intimativamente, retirando-se da janella: