Judas: romance lírico em quatro jornadas
JUDAS tomado de vago terror:
Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto,
Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto!
UDAS tomado de vago terror:
Justos ceus!
MARIA animando-se:
Has de vêr, com a tua alma inquieta,
Saír do seu casúlo a enorme borboleta,
Que n'esta hora talvez as palpebras descerra,
Encher de luz o espaço e de pavôr a terra,
Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...
UDAS trémulo:
E caír sobre mim co'o azorrague em punho!
MARIA terrivelmente:
Emquanto não voltar, os olhos do covarde
Hão de vêl-o assim como hontem o vi á tarde:
Co'o respirar opprésso, o corpo no madeiro,
Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro!
UDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado:
Não pode ser, não creio...
MARIA perseguindo-o:
Ha de falar-te, Judas,
Á tua consciencia abjecta!
UDAS tentando occultar o rosto:
Não me illudas,
Que eu nada vejo!
MARIA erguendo o braço:
Vês pairando sobre ti
O Remorso, o fantasma eterno!...
UDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e
apontando tambem, trémulo, allucinado:
Ali! ali!
Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria!
Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia
Que vae falar-me!—Oh! cala-te! Fui eu
Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu!
Não me accuses, que sinto em mim a accusação;
Tem os dentes da cobra e as garras do leão!
Anda aqui dentro—ouviste?—a esfarrapar-me todo!