Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 91 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

JUDAS tomado de vago terror:

Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto,

Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto!

UDAS tomado de vago terror:

Justos ceus!

MARIA animando-se:

Has de vêr, com a tua alma inquieta,

Saír do seu casúlo a enorme borboleta,

Que n'esta hora talvez as palpebras descerra,

Encher de luz o espaço e de pavôr a terra,

Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...

UDAS trémulo:

E caír sobre mim co'o azorrague em punho!

MARIA terrivelmente:

Emquanto não voltar, os olhos do covarde

Hão de vêl-o assim como hontem o vi á tarde:

Co'o respirar opprésso, o corpo no madeiro,

Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro!

UDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado:

Não pode ser, não creio...

MARIA perseguindo-o:

Ha de falar-te, Judas,

Á tua consciencia abjecta!

UDAS tentando occultar o rosto:

Não me illudas,

Que eu nada vejo!

MARIA erguendo o braço:

Vês pairando sobre ti

O Remorso, o fantasma eterno!...

UDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e

apontando tambem, trémulo, allucinado:

Ali! ali!

Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria!

Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia

Que vae falar-me!—Oh! cala-te! Fui eu

Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu!

Não me accuses, que sinto em mim a accusação;

Tem os dentes da cobra e as garras do leão!

Anda aqui dentro—ouviste?—a esfarrapar-me todo!