Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 62 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

HANAN refreando a cólera:

Mas porquê? Terás razões secretas?

PONCIO

Quem as tem não sou eu: são elles, os profetas, Ao falarem de ti.

HANAN com ironia e falsa humildade:

Então! sê razoavel

E mostra coherencia, ó tiranno implacavel! Um cadaver de mais, um cadaver de menos, É coisa que não leva aos teus dias serenos Nenhuma inquietação, nenhum remorso.

Animando-se pouco a pouco:

E quando

Um sacerdote probo e honesto e venerando Em nome da Judéa a morte solicíta

Para um vil criminoso, o teu rancor hesíta?!

Esplodindo, francamente:

De cumprir o dever percebo o que te afasta: Quem te fala sou eu, que tu odeias!

PONCIO fitando-o enfurecido, dá um murro na meza; e erguendo-se:

Basta!

Sabes que essas razões não oiço, nem toléro,E que digo uma vez que não, quando não quero!

—Como o poder de Roma aos homens do Conselho Tirou todo o poder de tingir de vermelho N'um banho sanguinario os corpos fraternaes, Privados de lavrar sentenças capitaes Sem que eu lhes dê meu voto, imaginaste, Hanan, Que eu poderia, qual infame barregã,

Despejar a vergonha á rua, como o lixo, Para satisfazer depois o teu capricho? Porque uma voz protesta e clama contra o vil Conselho que assoberba o povo e que, febril, Anda a espiar na sombra, a procurar o instante Em que ha de ser traidor ao Cezar triunfante; Porque um homem possue a civica ousadia De guerrear talvez a tua hipocrisia,

Venerando ancião, tiveste uma lembrança: Transformar o meu voto em arma de vingança Cobarde! Sim! Bem vejo a idéa que te inflamma!

Agarrando no pilo: