Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 52 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:

Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala!

Fica sabendo pois que isto que me avassala,

O que por fim se espande e que ha de ser funesto,

Nunca foi do amor um sentimento honesto!

MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:

Maldito sejas tu, se acaso me tocares!

UDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos,

agarrando-a:

Que importam maldições inuteis e vulgares?

Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os,

Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!

E tenta beijal-a, soffrego:

MARIA evitando-lhe os beijos:

Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!

UDAS arrastando-a para o triclinio:

Chamaste muito bem á minha ardente furia,

Como o fogo voraz, cruel e deshumana,

Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.

MARIA com a voz estrangulada, luctando:

Soccorro! Eleazar!

UDAS pondo-lhe a mão na bôca:

Oh! cala-te!

MARIA já sem forças:

Meu Deus!

UDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse:

Ah! como são gentis assim os olhos teus!

Como é rosada e fina a tua debil mão!

Vaes ser minha, afinal!

Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade,

abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas, diz n'um murmurio de desespero:

Desfallecida?!...

Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem

em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel attracção, com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza lhe désse um grito na alma: