Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:
Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala!
Fica sabendo pois que isto que me avassala,
O que por fim se espande e que ha de ser funesto,
Nunca foi do amor um sentimento honesto!
MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:
Maldito sejas tu, se acaso me tocares!
UDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos,
agarrando-a:
Que importam maldições inuteis e vulgares?
Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os,
Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!
E tenta beijal-a, soffrego:
MARIA evitando-lhe os beijos:
Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!
UDAS arrastando-a para o triclinio:
Chamaste muito bem á minha ardente furia,
Como o fogo voraz, cruel e deshumana,
Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.
MARIA com a voz estrangulada, luctando:
Soccorro! Eleazar!
UDAS pondo-lhe a mão na bôca:
Oh! cala-te!
MARIA já sem forças:
Meu Deus!
UDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse:
Ah! como são gentis assim os olhos teus!
Como é rosada e fina a tua debil mão!
Vaes ser minha, afinal!
Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade,
abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas, diz n'um murmurio de desespero:
Desfallecida?!...
Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem
em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel attracção, com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza lhe désse um grito na alma: