Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 36 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:

Está bem! muito bem! Ao menos, esperava

Que soubesses deter a incandescente lava,

Que todo me queimou, transformando em carvão

A minha consciencia... embora de ladrão.

Resoluto, firme, altivo:

Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino;

Mas isso que te importa? Um ser tão viperino,

Como eu, só tem logar no meio da ralé,

E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé!

OÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:

Acalma a excitação, Judas. O principal

Resume-se, ao presente, em confessares qual

A origem do teu odio. É isto o que eu te peço,

É isto o que eu desejo.

UDAS n'um brusco impulso de independencia:

Isso é que não! Confesso

Á minha consciencia o que me vae no peito!

Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito

De desvendar em mim reconditos misterios?

Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios!

—Pediste por acaso ao mar em que nasceste

Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste

A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo?

Pois o meu coração como elle é tão profundo,

Que se alguem pretendesse abrir uma passagem,

Teria de morrer submerso na voragem!

João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem, detem-

no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas verdadeiras intenções:

Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça

Conseguirei vergar esta alma tão submissa.

Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis...

Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis,

Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos,

Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos...

Depois quando vier o derradeiro instante,

Desamparado, nú, febril, agonisante,

Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas,

Em vez de maldições, tem palavras bemditas,Para quem desprezou

teu pobre coração,

Deixando-o succumbir como se fosse um cão!

—Adeus e para sempre.