Judas: romance lírico em quatro jornadas
JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:
Está bem! muito bem! Ao menos, esperava
Que soubesses deter a incandescente lava,
Que todo me queimou, transformando em carvão
A minha consciencia... embora de ladrão.
Resoluto, firme, altivo:
Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino;
Mas isso que te importa? Um ser tão viperino,
Como eu, só tem logar no meio da ralé,
E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé!
OÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:
Acalma a excitação, Judas. O principal
Resume-se, ao presente, em confessares qual
A origem do teu odio. É isto o que eu te peço,
É isto o que eu desejo.
UDAS n'um brusco impulso de independencia:
Isso é que não! Confesso
Á minha consciencia o que me vae no peito!
Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito
De desvendar em mim reconditos misterios?
Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios!
—Pediste por acaso ao mar em que nasceste
Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste
A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo?
Pois o meu coração como elle é tão profundo,
Que se alguem pretendesse abrir uma passagem,
Teria de morrer submerso na voragem!
João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem, detem-
no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas verdadeiras intenções:
Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça
Conseguirei vergar esta alma tão submissa.
Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis...
Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis,
Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos,
Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos...
Depois quando vier o derradeiro instante,
Desamparado, nú, febril, agonisante,
Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas,
Em vez de maldições, tem palavras bemditas,Para quem desprezou
teu pobre coração,
Deixando-o succumbir como se fosse um cão!
—Adeus e para sempre.