Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 43 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:

E foste uma das primeiras

Que se juntaram co'os Dôse

No Monte das Oliveiras,

Onde passaram a noite,

Como é costume.

MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:

E não ficas

De mal comigo?

MARIA

Porquê?

Se em nada me prejudicas...

E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar:

O que ha de novo, Judas?

UDAS

Nada sei...

MARTHA muito admirada:

Não quizeste partir para a cidade?

UDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio:

Como vês, não parti... pois que fiquei.

MARIA

E porquê?

UDAS

Porque o somno que me invade

Exige para o corpo algum repouso.Vae alto o Sol; de ha muito manifesta

Que brilha no seu ponto mais radioso, E que são horas de dormir a sesta.

MARIA, sem o fitar, serena:

E vaes dormir?

UDAS cerrando as palpebras:

O Livro dos Proverbios

Alguma coisa diz... «Quem se julgar

Com pequenos desgostos, exacerbe-os

A dormir, a dormir... e a sonhar...»

—Se durmo, para onde é que foge a vida? Para fóra de mim quem a conduz?

Encontrará descanso na guarida

Para onde, ao apagar-se, vae a luz?