Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:
E foste uma das primeiras
Que se juntaram co'os Dôse
No Monte das Oliveiras,
Onde passaram a noite,
Como é costume.
MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:
E não ficas
De mal comigo?
MARIA
Porquê?
Se em nada me prejudicas...
E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar:
O que ha de novo, Judas?
UDAS
Nada sei...
MARTHA muito admirada:
Não quizeste partir para a cidade?
UDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio:
Como vês, não parti... pois que fiquei.
MARIA
E porquê?
UDAS
Porque o somno que me invade
Exige para o corpo algum repouso.Vae alto o Sol; de ha muito manifesta
Que brilha no seu ponto mais radioso, E que são horas de dormir a sesta.
MARIA, sem o fitar, serena:
E vaes dormir?
UDAS cerrando as palpebras:
O Livro dos Proverbios
Alguma coisa diz... «Quem se julgar
Com pequenos desgostos, exacerbe-os
A dormir, a dormir... e a sonhar...»
—Se durmo, para onde é que foge a vida? Para fóra de mim quem a conduz?
Encontrará descanso na guarida
Para onde, ao apagar-se, vae a luz?