Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 57 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

CLAUDIA n'uma espansão de franqueza em que o desdem transparece:

A confiança. Bastaria a idéa

Da minha demissão, para de vez

Nos expulsar do resumido grémio

Dos seus affeiçoados, e talvez Depois se transformasse

em vingador...

—Pede outra coisa, Claudia; nunca peças

O que julgo insensato.

Somos grandes aqui; nenhum valor

Teriamos na côrte. Não te esqueças

Da sorte de Coponio, Rufo e Grato,

Ao voltarem a Roma.

Pede outra coisa, Claudia, que por certo

Has de ser attendida.

Não me digas, porém, que vá trocar

Aquillo que é seguro pelo incerto.

CLAUDIA n'uma espansão de franqueza em que o desdem transparece:

Mas que m'importa, a mim, o teu logar,

Se eu desejo viver onde se viva?

Em Roma, na cidade portentosa,

Onde qualquer escrava é mais altiva

Que uma nobre judía virtuosa!

Onde Gelanio, o deus das gargalhadas,

Desinfecta as emmanações palustres

Da tristeza! onde as pedras das calçadas

Falam até de tradições illustres!

Quero fugir d'este mortal supplicio

Para onde o meu ser se espanda e vibre;

Participar no seductor bulicio,

E ver á tarde o Sol beijar o Tibre!

Assistir como outr'ora aos festivaes

No grande circo onde o valor impéra;

Vêr athletas sanguineos, triunfaes

E ouvir os rugidos d'uma féra!

Beber o doce vinho de Falerno,

Ser cortezã, de novo rir e amar...

Dêem-me vida longe d'este Averno,

E que m'importa, a mim, o teu logar!

PONCIO resoluto, imperioso, deixando caír na meza a mão espalmada:

O que uma vez escrevo, escripto fica!

Depois, mais brando:

Não fugirei ás ordens de Tiberio.

De mais, coisa nenhuma justifica

Em solidas razões o que me pédes.