Judas: romance lírico em quatro jornadas
O Ostiario
Poncio ficou sósinho, meditando. Logo apparece no terraço o Ostiario que
veio do andar terreo pela escada exterior.
O OSTIARIO
Poncio, recebes agora?
PONCIO erguendo-se:
E quem é que me procura?
O OSTIARIO
O sacerdote judeu
Hanan.
PONCIO surprezo, como comsigo:
Hanan procurar-me
Na Torre Antonia, a esta hora?
—Ostiario, succedeu
Alguma coisa?...
O OSTIARIO
Não sei.
O povo está socegado.
PONCIO depois de reflectir:
Manda entrar o sacerdote
Para aqui mesmo.
Retira-se para o terraço o Ostiario. Poncio, que ficára preoccupado, diz
como comsigo:
Cuidado!...
Vae buscar uma adaga á panoplia mais proxima e mette-a no cinturão; pôe
em cima da meza o pilo de ouro que estava encostado ao busto de Tiberio. Senta-se novamente na cadeira.
A um gesto do Ostiario, dois vultos subiram a escada, e a breve trecho
appareceram no terraço; são dois homens, cujos semblantes o luar illumina. Um é Judas; o outro um velho de setenta annos, mas válido e robusto—o ex-Grande Sacerdote Hanan, sogro do Grande Sacerdote Kaíapha. Meão d'estatura, barba cerrada e não comprida onde abundam as brancas, assim como no bigode hirsuto e no longo cabello descuidado; nariz adunco, olhos azues e penetrantes. E seu trajar egual ao do mais humilde filho d'Israel: tunica e manto, mitra redonda no alto da cabeça; chinellos muito usados. Dir-se-ía que tal modestia d'aspecto foi um calculo, um disfarce... Ha porem na sua fisionomia e na voz resoluta e aspera a expressão da velhacaria e do mando.