Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 29 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Em 9 de Nisan

 

SEGUNDA JORNADA

 

EM 9 DE NISAN

 

Estamos em casa de Simão de Bethania.

A casa de entrada é ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas

tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio já nosso conhecido

e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica á direita, outra

janella olha para Jerusalem e para a estrada que á cidade conduz; na da

esquerda, pequena porta com trez degraus dá communicação para o interior.

Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial,

onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida

domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela;

pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria,

pedaços d'esteira de junco do Jordão. Não distante da janella fronteira á

cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denuncía tambem a

influencia do triclinio nos costumes da Judéa.

A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos

os morrões que a apagada luz na vespera deixara. É dia claro, festivamente

bello; o sol dardeja e as cigarras vibram.

No triclinio trez homens estão deitados: Simão Pedra, Matheus e o

Leproso. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco

temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo graal

collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simão; pedaços de pão

levedo em frente de cada commensal.

Não distante da porta, Judas está sentado no poial, as pernas cruzadas sob

a tunica, e tendo nos joelhos um grande rôlo aberto onde lê attento as

Sagradas Escripturas.

João, no limiar da porta, sem manto, a tunica á cintura aconchegada por

uma velha corda de linho que foi branco, braços cruzados,—medita e lança

de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam Judas.

MATHEUS

De ha muito que não como, e sem lisonja o digo, Um pão com tal sabor. Que saboroso trigo! Não achas?

SIMÃO PEDRA