Judas: romance lírico em quatro jornadas
Maria
Tem muito mais poder o verbo d'um profeta!
Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição
Das coisas divinaes a toda a multidão,Que se contorce afflicta
em negro paroxismo,
Descrente de Moysés, propensa ao paganismo.
Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra,
Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra,
Pesada, como o arado á terra bemfasejo,
Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!
GAMALIEL
E quem te diz que não? Eu julgo indifferente
Que tenhamos no Mestre aquelle descendente
Do nome de David ao mundo promettido
Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido.
Porque bem vejo a força enorme, o poderío
Que exerce na cidade. É mais que prestadío
Á Patria um homem tal!
ELEAZAR
A sua mão convulsa,
Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa
Para longe do sitio ás preces consagrado...
MARIA
E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!...
—Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes
E que mercadejava as graças corporaes;
Ascende até o amor aos pobres, ás creanças,
Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças
N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...
ELEAZAR
Quando, porem, troveja irado, mais parece
Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!
MARIA
Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!...
ELEAZAR
Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...
GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria, que foi
sentar-se junto da fonte: