Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 7 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Maria

Tem muito mais poder o verbo d'um profeta!

Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição

Das coisas divinaes a toda a multidão,Que se contorce afflicta

em negro paroxismo,

Descrente de Moysés, propensa ao paganismo.

Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra,

Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra,

Pesada, como o arado á terra bemfasejo,

Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!

GAMALIEL

E quem te diz que não? Eu julgo indifferente

Que tenhamos no Mestre aquelle descendente

Do nome de David ao mundo promettido

Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido.

Porque bem vejo a força enorme, o poderío

Que exerce na cidade. É mais que prestadío

Á Patria um homem tal!

ELEAZAR

A sua mão convulsa,

Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa

Para longe do sitio ás preces consagrado...

MARIA

E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!...

—Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes

E que mercadejava as graças corporaes;

Ascende até o amor aos pobres, ás creanças,

Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças

N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...

ELEAZAR

Quando, porem, troveja irado, mais parece

Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!

MARIA

Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!...

ELEAZAR

Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...

GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria, que foi

sentar-se junto da fonte: