Judas: romance lírico em quatro jornadas
Geda
E que importa o motivo, se é costume
Não entrar sem licença do Ostiario?
A MULHER
Em pouco a minha falta se resume:
Vi tudo solitario...
GEDA
Esperasses.
A MULHER
Desculpa-me...
GEDA
Duvído
De que a minha ama te receba. É tarde.
A menos que a tivesses prevenido
De vir, e que te aguarde.
A MULHER assumindo attitude imperiosa:
Urge que eu fale a Claudia. É muito sério
O que me traz!
GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na meza.
Eu vou...—Temos misterio!
E entra nos aposentos de Claudia.
A mulher, vendo-se sósinha, ergue então o véo. É Maria de Bethania. Á
fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral.
MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma préce:
Ó essencia do Bem! ó divinal encanto,
Que fazes do Amor a tua crença unica!
Presinto que a Desgraça estende o negro manto
E deixa a descoberto a sanguinaria tunica,
Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora
Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura,
Em breve deixará de ser como é a aurora,
Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura!
Mostra-te para mim bondoso e esmoler:
Escuta-me, Senhor! E que seja bastante,
Para fazer da noite aurora triunfante,
Uma lagrima ardente e pura de mulher.
E fica absorta, com a cabeça encostada ao pedestal do busto de Tiberio.