Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 69 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Geda

E que importa o motivo, se é costume

Não entrar sem licença do Ostiario?

A MULHER

Em pouco a minha falta se resume:

Vi tudo solitario...

GEDA

Esperasses.

A MULHER

Desculpa-me...

GEDA

Duvído

De que a minha ama te receba. É tarde.

A menos que a tivesses prevenido

De vir, e que te aguarde.

A MULHER assumindo attitude imperiosa:

Urge que eu fale a Claudia. É muito sério

O que me traz!

GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na meza.

Eu vou...—Temos misterio!

E entra nos aposentos de Claudia.

 

A mulher, vendo-se sósinha, ergue então o véo. É Maria de Bethania. Á

fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral.

MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma préce:

Ó essencia do Bem! ó divinal encanto,

Que fazes do Amor a tua crença unica!

Presinto que a Desgraça estende o negro manto

E deixa a descoberto a sanguinaria tunica,

Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora

Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura,

Em breve deixará de ser como é a aurora,

Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura!

Mostra-te para mim bondoso e esmoler:

Escuta-me, Senhor! E que seja bastante,

Para fazer da noite aurora triunfante,

Uma lagrima ardente e pura de mulher.

E fica absorta, com a cabeça encostada ao pedestal do busto de Tiberio.