Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 26 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:

Á supplica de João succede algum silencio: todos têem o olhar em Simão

Pedra, aguardando o desenlace.

 

SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:

Eu sei que és razoavel.

Já tinha como certa a confissão louvavel, Que logo surgiria á simples ameaça...

OÃO abraçando-o effusivamente:

Devemos collocar ao longe o que a desgraça Procura intrometter no nosso coração!

MATHEUS

O Mestre é que diz bem: nasceste d'um trovão, Mas tens dentro do peito os risos da bonança!

SIMÃO PEDRA

Não voltes a magoal-o.

OÃO

Hei de mudar, descansa.

Encaminha-se para casa, mas

SIMÃO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se

passára:

E fala-lhe, João: não vês como ficou?

OÃO com bonhomía:

Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi!

UDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado:

Eu vou.

 

Mas fica, e só os quatro entram para casa.

Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente

immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando

toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme

reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos;

apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém, distinguem-

se os sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos romeiros, que veem

para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e pandeiro. É um himno

melancólico, dolente, ao pausado compasso da andadura. Pouco a pouco os

sons definem-se, approximam-se. A aragem fresca e perfumada balouça

docemente o arvoredo.