Judas: romance lírico em quatro jornadas
SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:
Á supplica de João succede algum silencio: todos têem o olhar em Simão
Pedra, aguardando o desenlace.
SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:
Eu sei que és razoavel.
Já tinha como certa a confissão louvavel, Que logo surgiria á simples ameaça...
OÃO abraçando-o effusivamente:
Devemos collocar ao longe o que a desgraça Procura intrometter no nosso coração!
MATHEUS
O Mestre é que diz bem: nasceste d'um trovão, Mas tens dentro do peito os risos da bonança!
SIMÃO PEDRA
Não voltes a magoal-o.
OÃO
Hei de mudar, descansa.
Encaminha-se para casa, mas
SIMÃO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se
passára:
E fala-lhe, João: não vês como ficou?
OÃO com bonhomía:
Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi!
UDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado:
Eu vou.
Mas fica, e só os quatro entram para casa.
Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente
immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando
toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme
reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos;
apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém, distinguem-
se os sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos romeiros, que veem
para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e pandeiro. É um himno
melancólico, dolente, ao pausado compasso da andadura. Pouco a pouco os
sons definem-se, approximam-se. A aragem fresca e perfumada balouça
docemente o arvoredo.