Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 86 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Gamaliel

Que chega a ser um attentado

Á memoria do Mestre abandonar o arado

Com que elle andou lavrando a consciencia humana!

Eu quero a lucta, sim, mas nunca a lucta insana,

Que esfria os corações e purpurisa as ruas!

Não quero vêr brilhar ao sol espadas nuas!

Impiedades brutaes, odeio-as e renego-as!

SIMÃO PEDRA

Mas faláste de lucta.

GAMALIEL

Humilde, mas sem trégoas;

Branda, mas incisiva; humana... mas divina!

Como arma, aquelle dom secreto que extermina,

Ferindo os corações sem que haja soffrimento.

Ruge, como o trovão e géme como o vento,

Murmúra como a fonte e estála como o raio,

Tem a ardencia do fogo e a alvura do desmaio;

Dolente, acaricía; em furias, escalavra!

Esta arma triunfante, esta arma...

OÃO com o olhar brilhante:

É a palavra!

Mas logo receioso:

Falar ás multidões...?

SIMÃO PEDRA tambem receioso:

Continuar...?

GAMALIEL

Decerto!

Entrando no porvir que Elle deixou aberto.

Pois que o Mestre morreu, a alguem cumpre seguir

O caminho traçado entrando no porvir,

E esse alguem és tu!

OÃO n'um sobresalto:

Eu?

ELEAZAR abraçando-se n'elle, espansivo:

Sim, João!

SIMÃO incitando-o: