Judas: romance lírico em quatro jornadas
Matheus
Tarde ou cedo,
Alguem desvendará por certo este segredo.
E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando,
encaminhando-se por fim para mais distante.
OÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre Judas.
Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de estar a sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno, como procurando dominar-se:
O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho. Reparo em que lhe dás toda a attenção.
UDAS
Medonho!
—A infamia de Caím.
OÃO
É proveitoso, e muito!
Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito,No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã,
De falar d'esse crime o qual desde manhã Tanto me preoccupa.
Muito ironico:
Á tua consciencia
Não pode causar damno esta coincidencia... És tão sincero, és tão leal e virtuoso!... —Mas devo confessar-te...
UDAS sereno e sempre sentado:
O quê?
OÃO
Que estou ancioso
De ha muito por que tu expliques o motivo, Que te obrigou a ser cruel e offensivo Para quem te consagra uma affeição fraterna.
Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu:
O que possues em ti, Judas, que assim governa O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo No misterio que abriu na tua frente um abismo Cercado de fataes e nús despenhadeiros,