Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 33 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Matheus

Tarde ou cedo,

Alguem desvendará por certo este segredo.

E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando,

encaminhando-se por fim para mais distante.

 

OÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre Judas.

Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de estar a sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno, como procurando dominar-se:

O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho. Reparo em que lhe dás toda a attenção.

UDAS

Medonho!

—A infamia de Caím.

OÃO

É proveitoso, e muito!

Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito,No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã,

De falar d'esse crime o qual desde manhã Tanto me preoccupa.

Muito ironico:

Á tua consciencia

Não pode causar damno esta coincidencia... És tão sincero, és tão leal e virtuoso!... —Mas devo confessar-te...

UDAS sereno e sempre sentado:

O quê?

OÃO

Que estou ancioso

De ha muito por que tu expliques o motivo, Que te obrigou a ser cruel e offensivo Para quem te consagra uma affeição fraterna.

Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu:

O que possues em ti, Judas, que assim governa O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo No misterio que abriu na tua frente um abismo Cercado de fataes e nús despenhadeiros,