Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 10 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

A expansão do Instituto Soroterápico

Tiras da história em quadrinhos sobre "Oswaldo Cruz, o

saneador", com texto de Nair Miranda e desenhos de Ramón

Llampayas. Coleção Grandes Figuras nº 2, s.d., Editora Brasil-

América Limitada.

 

A expansão do Instituto Soroterápico

Ao assumir a direção da Saúde Pública, Oswaldo Cruz propôs ao Congresso que o Instituto Soroterápico Federal fosse transformado "num instituto para estudo das doenças infecciosas tropicais, segundo as linhas do Instituto Pasteur de Paris" (Benchimol, 1990, p. 26). A proposta foi vetada, mas isso não impediu que ele proporcionasse a Manguinhos as condições técnicas e materiais para que rapidamente sobrepujasse sua conformação original. À revelia do Legislativo, com verbas de sua diretoria, iniciou a edificação de um conjunto arquitetônico sofisticado para abrigar novos laboratórios, novas linhas de pesquisa, a fabricação de mais soros e vacinas e ainda o ensino da microbiologia.

O ambiente de trabalho naquele lugar afastado da zona urbana diferia muito da ambiência belicosa em que se davam as demolições e campanhas sanitárias. Os pesquisadores precisavam atender às demandas da saúde pública, mas tinham liberdade para escolher seus objetos de pesquisa. Oswaldo Cruz queria que os integrantes de seu "jardim de infância da ciência" (a expressão é dele), todos com menos de trinta anos de idade, adquirissem confiança em si

mesmos para desenvolver trabalhos próprios e originais. 18 Uma vez por semana, reuniam-se para debater as novidades veiculadas nos periódicos científicos estrangeiros. Os artigos eram resumidos e comentados conforme as vocações manifestadas pelos membros daquela pequena comunidade, que buscava a sintonia com o que se estava fazendo nas fronteiras da microbiologia e da medicina tropical. Em seus relatórios, Oswaldo Cruz defendia o alargamento das atividades do instituto, externando posição contrária ao imediatismo e utilitarismo que caracterizavam a visão do Estado sobre o papel da ciência na saúde e que, como mostrou Nancy Stepan (1976), iriam, em breve, levar ao colapso o Instituto Bacteriológico de São Paulo.

As fronteiras de Manguinhos dilatavam-se em três planos distintos. Fabricação de produtos biológicos, pesquisa e ensino — vertentes peculiares ao Instituto Pasteur de Paris — definem, ainda hoje, o perfil do grande conglomerado que é a Fundação Oswaldo Cruz. Doenças humanas, animais e, em menor escala, vegetais enfeixavam investigações que punham a instituição em contato com diferentes "clientes" e comunidades de pesquisa, reforçando suas bases sociais de sustentação. A dilatação de fronteiras tinha também conotação geopolítica, como para os institutos europeus que atuavam nas possessões coloniais africanas e asiáticas. Com freqüência cada vez maior, os cientistas de Manguinhos se embrenhariam pelos sertões do Brasil para combater doenças — a malária, principalmente —, pondo sua expertise a serviço de ferrovias, hidrelétricas, obras de infra-estrutura, empreendimentos agropecuários ou extrativos. Teriam oportunidade de estudar patologias pouco ou nada conhecidas e de recolher materiais que dariam grande amplitude às coleções biológicas do instituto e aos horizontes da medicina tropical no Brasil.

Seção científica no barracão que servia de biblioteca e gabinete

fotográfico do Instituto Soroterápico, em 1904. De costas,

Alcides Godoy; à sua direita, drs. Antônio Cardoso Fontes,

Rocha Lima, Oswaldo Cruz (debruçado sobre a mesa), Henrique

Marques Lisboa, Carlos Chagas, Ezequiel Caetano Dias,

Rodolpho de Abreu Filho, Paulo Parreiras Horta, Henrique de

Beaurepaire Rohan Aragão e Afonso MacDowell.

Foto: J. Pinto

Coc/Fiocruz

Ao encerrar-se o governo Rodrigues Alves, as estatísticas comprovavam o êxito das campanhas contra a febre amarela e a peste bubônica. As novas avenidas e os palacetes edificados às suas margens davam a impressão de que o Rio, enfim, civilizava-se. A rude plebe que animara a Revolta da Vacina fora subjugada e expulsa das áreas renovadas, e boa parte dos adversários da reforma e saneamento urbanos se rendia à retórica triunfante da "regeneração" do Brasil. Apesar do prestígio de Oswaldo Cruz, que lhe valeu, inclusive, a confirmação no cargo de diretor da Saúde Pública no governo de Afonso Pena (1906-09), Manguinhos encontrava-se numa posição bastante frágil do ponto de vista institucional, por haver extravasado, sem respaldo jurídico, o arcabouço primitivo do Instituto Soroterápico.

Sua transformação em Instituto de Medicina Experimental foi novamente pedida ao Congresso, em junho de 1906. O projeto foi atacado na Câmara dos Deputados e no Senado, e esteve a pique de naufragar sob o peso de emendas e substitutivos que o desfiguravam completamente. Em larga medida, a batalha foi vencida em teatro distante da capital brasileira. A diretoria e o instituto chefiados por Oswaldo Cruz foram as únicas instituições sul-americanas que participaram, em setembro de 1907, do XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia e da Exposição de Higiene anexa a ele, em Berlim. A viagem àquela capital era parte da estratégia de estreitamento dos laços com instituições científicas européias (Cruz, 1906, p. 15). A presença da missão francesa e também de uma missão alemã (Otto e Neumann, 1904) no Rio de Janeiro dera ao instituto alguma visibilidade internacional.

Foi importante a preocupação de seus pesquisadores de publicar em periódicos respeitados e de remeter materiais relacionados às doenças tropicais a instituições como o Museu Britânico, o Instituto de Higiene de Heidelberg e o de Moléstias Infecciosas de Berlim, as Escolas de Medicina Tropical de Hamburgo, Londres e Liverpoool e o Instituto Pasteur de Paris. Este, por diversas vezes, foi chamado a certificar a qualidade dos soros e vacinas de Manguinhos. Os contatos com as instituições da Alemanha foram reforçados por Rocha Lima, quando ele visitou pela segunda vez o país, em 1906, para estudar as inovações técnicas a introduzir em Manguinhos e para inaugurar, a convite de Fischer, a seção de estudos da peste no Instituto de Higiene de Berlim.

Os materiais mais importantes da mostra brasileira naquela cidade diziam respeito à bem-sucedida campanha contra a febre amarela no Rio de Janeiro. A medalha de ouro conquistada lá teve enorme repercussão no Brasil. O governo, que acabara de mandar para a Europa uma "comissão de propaganda", resolveu utilizar Oswaldo Cruz em missões diplomáticas destinadas a atrair imigrantes e capitais. Tal como acontecera com Domingos Freire, vinte anos antes, uma recepção apoteótica foi preparada para receber o herói que fizera "a Europa se curvar ante o Brasil". E a ciência converteu-se em importante ingrediente dos discursos com que as elites celebravam o novo cenário urbano, onde desempenhavam seus papéis de figurantes da cultura e civilização européias. O Rio de Janeiro, que se tornara a "Paris das Américas", possuía, outra vez,

um Pasteur para canonizar. 19

Ainda em Paris, Oswaldo Cruz redigiu o regulamento do Instituto de Patologia Experimental, criado em dezembro de 1907, e rebatizado de Instituto Oswaldo Cruz em março de 1908. O regulamento sacramentava o tripé produção de imunobiológicos, pesquisa e ensino, e retirava o instituto do organograma da Diretoria Geral de Saúde Pública, subordinando-o diretamente ao ministro da Justiça. Graças a isso, não houve descontinuidade em sua trajetória quando Oswaldo Cruz deixou a direção da Saúde Pública em 1909. Igualmente importante foi a autorização para que o instituto auferisse rendas próprias com a venda de serviços, soros e vacinas. Isso permitiu enfrentar em condições mais vantajosas do que outras instituições do Estado a tradicional penúria de recursos públicos para a saúde e a ciência.

Pavilhão Central conhecido por Castelo Mourisco em foto

batida pouco depois de 1910 quando foram cobertas as torres.

A presença dos andaimes denota que se estava em vias de

concluir o revestimento externo. À direita vê-se ainda de pé o

antigo laboratório soroterápico. Em primeiro plano, a torre do

Pavilhão da Peste.

Foto: J. Pinto

Coc/Fiocruz

Hall do Pavilhão Mourisco (terceiro pavimento) onde se vê a imponente estrutura metálica da escada feita na Alemanha, e a riqueza da decoração interior: os estuques em marfim claro, os

mosaicos coloridos no piso, as portas trabalhadas em peroba

amarela, as luminárias em ferro fundido ou em bronze dourado.

Foto: J. Pinto

Coc/Fiocruz

 

Um dos pequenos pavilhões do Biotério para Pequenos

Animais, conhecido também como Pombal, projetado em 1908.

Ao fundo vêem-se, da esquerda para a direita, torre do Aquário,

nova Cavalariça, Pavilhão Mourisco e a velha Cavalariça do

Instituto Soroterápico, logo demolida.

Coc/Fiocruz

Pavilhão da Peste e, em segundo plano, o Aquário. Destinado

ao estudo da fauna e flora aquáticas, de água doce e salgada,

este sofisticado prédio foi demolido pouco depois da abertura

da Avenida Brasil, na década de 1940. No canto inferior direito

vê-se o duto que ligava o prédio ao mar, assegurando a

renovação dos reservatórios de água salgada. Cerca de 1910.

Foto: J. Pinto

Coc/Fiocruz