Febre amarela: a doença e a vacina
A campanha no Brasil
O bacteriologista Hideyo Noguchi, autor da descoberta, na
década de 1920, do agente etiológico da febre amarela,
posteriormente julgada inexata. Antes disso, desenvolveu uma
vacina e um soro, utilizados em diversos países sulamericanos,
inclusive o Brasil, até 1928.
Coc/Fiocruz
A campanha no Brasil
A presença da Rockefeller no Brasil, durante a Primeira Guerra Mundial, coincidiu com a estruturação do chamado "movimento sanitarista", protagonizado por uma geração de médicos calejada nas campanhas sanitárias ou expedições científicas promovidas por Oswaldo Cruz entre 1903 e 1913. Sob a liderança de Carlos Chagas, seu sucessor na direção do Instituto de Manguinhos, e de Belisário Pena, incansável propagandista do saneamento rural, esses médicos mobilizaram-se contra a inconsistente política de saúde das oligarquias, reivindicando a modernização e centralização dos serviços sanitários, e uma política voltada não só para as doenças de base urbana mas também para a prevenção e o controle das endemias rurais.
Em fins de 1918, a gripe espanhola causou 18.000 mortes no Rio de Janeiro, e trinta mil em todo o país. A crise desencadeada por essa pandemia pôs a nu a indigência dos serviços sanitários do governo e catalisou a arregimentação da corporação médica e da opinião pública contra o descaso das oligarquias com a saúde da população.
A sucessão presidencial, em fins daquele ano, polarizou-se em torno das candidaturas de Rui Barbosa e Epitácio Pessoa. Venceu o último, com uma plataforma de governo que contemplava a reforma sanitária e o combate às endemias rurais. Em julho de 1919, Epitácio Pessoa entregou a direção dos serviços de saúde a Carlos Chagas e, em seguida, enviou ao Congresso mensagem tratando das principais reivindicações do movimento sanitarista. Em janeiro de 1920, foi criado o Departamento Nacional de Saúde Pública, que sofreu sucessivas alterações até ganhar sua forma definitiva, já no
governo de Artur Bernardes.8
À frente do DNSP, até 1926, Carlos Chagas estabeleceu diversos acordos de cooperação com a Fundação Rockefeller, envolvendo não apenas a febre amarela mas também a ancilostomíase, a malária e o ensino da medicina e enfermagem. Como mostrou Nara Britto 1995, a figura já mítica de Oswaldo Cruz, falecido em 11 de fevereiro de 1917, foi uma força muito importante para a coesão dos médicos engajados no movimento sanitarista e para a arregimentação dos aliados que viabilizaram o salto de qualidade na instituição da saúde pública brasileira. E o pedestal que sustentava o Oswaldo Cruz mítico era a luta vitoriosa contra a febre amarela no Rio de Janeiro, em 1903-07. Houve, assim, fortes reações nacionalistas à intenção da Rockefeller de assenhorear-se de um campo em que os sanitaristas brasileiros julgavam possuir comprovada expertise. Já em fins de 1916, quando Gorgas visitou o Brasil, Plácido Barbosa, um dos principais auxiliares de Oswaldo Cruz na saúde pública, advertiu que o ingresso da fundação norte-americana constituía a guarda avançada de outras formas de
dominação imperialista. 9
Resumo das atividades da Comissão de Febre Amarela,
indicando localidades do estado da Bahia onde a comissão
atuou. Década de 1920.
Coc/Fiocruz
O conflito cristalizou-se numa divergência fundamental, a propósito da forma de ataque ao vetor da febre amarela. Os "mata-mosquitos" de Oswaldo Cruz haviam levado a bom termo o combate à febre amarela no Rio de Janeiro e em Belém (1909), privilegiando as fumigações nos prédios com o objetivo de eliminar os mosquitos adultos. Os médicos da Rockefeller consideravam esse método caro e ineficiente. Julgavam que era mais eficaz e barato atacar o mosquito no início de seu ciclo de vida, na forma larvária, antes que pudesse depositar ovos e infectar seres humanos.
O que estava em jogo não era apenas um choque de ortodoxias. Segundo Stevens, as fumigações cumpriam função política importante para os sanitaristas brasileiros: sua espetaculosidade facilitava a conquista de apoio dos caciques políticos e do público. "O sucesso das fumigações como medida destinada não só a eliminar a febre amarela como a acalmar moradores irritados com Aedes aegypti famintos de sangue reforçava os elos entre faculdades médicas, o patronato público e os caciques políticos locais, assegurando o uso continuado destas medidas, especialmente durante os ciclos eleitorais." Stevens (1994, pp. 29-30) afirma, ainda, que esses grupos receavam que uma estratégia diferente, com a qual as populações urbanas não estavam acostumadas, pudesse provocar revoltas como a suscitada pela imposição da vacina antivariólica.
Aspecto de casas "infectadas", que eram cobertas com telas de
algodão, antes de se introduzir o gás à base de enxofre, para
matar os mosquitos em sua fase alada. Os trabalhos de
"expurgo", base da campanha de Oswaldo Cruz em 1903-1907
no Rio de Janeiro e em Belém, foram repudiados pela Fundação
Rockefeller, que defendia exclusivamente o combate às larvas.
Os expurgos voltaram a ser praticados na epidemia de 1928-
1929, usando-se a nebulização com Flit e outros inseticidas em
substituição ao enxofre. 1922.
Rockefeller Archive Center
Para os médicos da Rockefeller,10 as autoridades brasileiras usavam as fumigações como "jogo de cena", para esconder deficiências que eram endêmicas em todos os níveis da administração pública. Hostilizavam as ações antilarvárias por não se prestarem ao exibicionismo e por implicarem grau elevado de intervenção na rotina dos habitantes. Por ser mais difícil a implementação dessas ações em cidades como Rio de Janeiro e Salvador, a Fundação Rockefeller preferiu iniciar a demonstração da superioridade de seus métodos nas cidades menores do Nordeste, mas tendo em mira, desde o início, um programa unificado em escala nacional.
Por outro lado, o combate às larvas nessas cidades menos 'modernas', onde as canalizações de água e esgotos eram precárias ou inexistentes, tinha implicações mais sérias, pois requeria intervenção mais drástica nos sistemas domésticos de armazenamento de água, constituídos principalmente de jarras, moringas e outros recipientes de barro. Além disso, componente importante da campanha era a colocação de peixes larvófagos ou de uma camada de óleo nos depósitos de água, o que despertaria fortes reações de parte dos clínicos, não tanto por identificação com os interesses políticos locais e sim por razões de ordem médica, por sinal bastante compreensíveis.
Foto produzida por médicos da Fundação Rockefeller em visita
ao estado da Paraíba, integrante de uma série de imagens que, ao longo dos anos de 1920, cumpriam a função de documentar as condições sanitárias e de saúde das populações brasileiras,
tanto rurais quanto urbanas Sempre acompanhadas por
descrições minuciosas, eram muitas vezes utilizadas nos
chamados surveys, instrumentos de trabalho da Rockefeller,
cuja função principal consistia em produzir um detalhado
levantamento da região ou cidade objeto de interesse para
possível intervenção da fundação. Possui originalmente a seguinte legenda: "Uma maneira importante de auxiliar os
trabalhos de distribuição de água para as casas são as
conexões entre diversos chafarizes. As estações públicas de
abastecimento estão localizadas em vários pontos da cidade.
Em uma cidade da Paraíba existem mais de 25 destes depósitos, distribuídos de acordo com a demanda da
vizinhança. O serviço funciona regularmente pela manhã e irregularmente à tarde. A água destas estações custa vinte réis por lata ou barril de cinco galões (...). Nas casas menores duas
latas suprem as necessidades de uma família por um dia,
perfazendo uma despesa insignificante. Uma boa quantidade
desta água é transportada pela população sem qualquer
desperdício".
Rockefeller Archive Center
Para os médicos da Rockefeller, a fotografia tornava possível a descrição visual de um inventário dos hábitos e das condições
de vida da população. Ao longo de suas viagens pelo país,
foram colhidas imagens como esta, que retrata as formas de
armazenamento e saneamento de água encontradas nas
residências de cidades paraibanas. Ao centro, um jarro muito
utilizado na Paraíba para armazenamento de água. À direita, um
pequeno utensílio destinado à proteção de vasos com flores e,
à esquerda, um tipo de reservatório pequeno, também muito
comum na região.
Rockefeller Archive Center
Um dos cinco postos de peixes instalados na cidade de Recife.
Na foto vê-se um tanque que contém peixes a serem
distribuídos aos habitantes possuidores de reservatórios de
água passíveis de proteção contra o Estegomya através de
peixes larvívoros. Recife, PE, março de 1930.
Foto: E. R. Richard
Rockefeller Archive Center
Stevens pesquisou a documentação de L. W. Hackett, chefe das primeiras operações no Brasil. Um dos primeiros alunos do curso de formação de administradores em saúde pública ministrado em Harvard, atuara na Guatemala, em Honduras e no Panamá. Ao chegar ao Brasil, não demorou a perceber que o país requeria tática "mais sutil" do que a empregada nas 'republiquetas' centro-americanas. Chegou a escrever que se devia tirar proveito das dissidências intraoligárquicas para suplantar a influência dos herdeiros de Oswaldo Cruz e impor uma campanha coesa e coordenada de âmbito nacional, num país fragmentado por unidades federativas que não interagiam para enfrentar seus problemas de saúde pública (ibidem, p. 28-9).
No verão de 1923, os surtos de febre amarela no Nordeste agravaram-se. Foram então formalizados os entendimentos que o governo vinha mantendo com a Fundação Rockefeller desde 1916. A reforma recém-instituída deu às autoridades federais maior capacidade de intervir nas questões sanitárias que eram de responsabilidade dos estados. O decreto nº 16.000, de 31 de dezembro de 1923, delegou à Junta Sanitária Internacional e ao Departamento Nacional de Saúde Pública a responsabilidade conjunta pela eliminação do Aedes aegypti nas cidades litorâneas do Norte do Brasil, cabendo a supervisão dos trabalhos a uma Comissão da Febre Amarela, composta por dois representantes de cada órgão e chefiada por um membro do último. A Fundação Rockefeller firmou acordos em separado com os governos da Bahia, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pará e outros estados, assumindo, de fato, o controle das operações, ainda que à custa de graves conflitos com os sanitaristas brasileiros que se achavam à frente das Comissões Sanitárias Federais criadas em 1919.
Em 26 de novembro de 1923, já extintas essas comissões, foi inaugurado o primeiro posto anti amarílico em Recife, sob a direção do major Lister. Dez outros postos foram criados nos principais portos compreendidos entre Manaus e Salvador, procedendo-se ao detalhado mapeamento de suas malhas urbanas. O combate às larvas do Aedes aegypti nessas cidades, sob a direção de A. W. Walcott, teve, a princípio, resultados muito positivos, e já em 1925, os postos começaram a ser desativados. "Nosso método de combate à febre amarela é muito simples" — declarava nesse ano Joseph H. White, diretor do programa anti amarílico da Rockefeller no Brasil. "Nós incorporamos a nosso campo de operação só os maiores centros de população e não dispensamos nenhuma atenção às pequenas cidades" (ibidem, p. 14).
A essa altura, porém, já eram visíveis os sinais de que a doença não se ajustava ao modelo dos focos-chave. Em 1920, os drs. Waldemar Antunes e Clóvis Correia, da Comissão Sanitária Federal recém-criada em Pernambuco, tinham diagnosticado um caso de febre amarela no interior daquele estado; "se não foi o primeiro, como julgaram aqueles médicos, foi um dos primeiros casos de febre amarela rural diagnosticados em nosso país" (Franco, 1969, p. 96). Sebastião Barroso, chefe do programa federal na Bahia, também observou casos provenientes de engenhos do interior e divulgou suas observações numa conferência em 1922 na Sociedade de Medicina da Bahia. Comparou a endemicidade da febre amarela a "uma grande ameba a arrastar-se sobre um território mais ou menos vasto"; àquela altura, achava-se "para os lados do município de Conquista, estendendo seus pseudópodos para Jaraguá, Taperoá e Canavieiras" (ibidem, p. 96-7).
Em 1923, Joseph White visitou as principais cidades entre os estados do Rio de Janeiro e Amazonas. Encontrou a febre amarela somente entre os portos da Bahia e do Ceará, e reiterou sua convicção de que a eliminação da doença nestes centros acarretaria a extinção automática dos focos interioranos. Os sanitaristas brasileiros não aceitavam esta teoria. Sua experiência lhes dizia que a febre amarela continuava a grassar em numerosas localidades rurais apesar dos êxitos anunciados pelos norte-americanos, que se limitavam a contabilizar casos 'típicos', via de regra em imigrantes recém-chegados às cidades litorâneas. Em brasileiros nativos, a doença se manifestava sob formas brandas ou atípicas, sobretudo em crianças que, se sobrevivessem, e a maioria sobrevivia, ficavam imunizadas.
Os conflitos de opinião e autoridade entre os sanitaristas brasileiros e norte-americanos foram mais drásticos em Salvador, baluarte da cultura médica nordestina. Em 1923, Sebastião Barroso pediu demissão do cargo de diretor do Serviço de Profilaxia Rural na Bahia, num ato público defronte à Sociedade Médica Baiana onde se fizeram ouvir eloqüentes discursos nacionalistas e sonoros apupos aos imperialistas americanos. Além de acusar a Rockefeller de exceder os limites de sua autoridade, assumindo o controle total do programa, criticou a introdução de peixes retirados de rios poluídos nos depósitos de água potável, as inspeções em residências particulares em horas impróprias e a prática de se oferecerem prêmios aos inspetores distritais, que se sentiam, assim, encorajados a falsificar relatórios (Stevens, 1994, p. 15; Franco, 1969, pp. 96-7).
Exposição Internacional comemorativa do Centenário da
Independência do Brasil, realizada no Rio de Janeiro em
setembro de 1922. À esquerda, o Palácio das Festas, que
abrigou o estande da International Health Board, no detalhe, com a exibição de aspectos dos trabalhos desenvolvidos pela
Comissão Rockefeller no país.
Foto Lopes Rockefeller Archive Center
Os primeiros resultados obtidos pela Rockefeller impressionaram. Em 1924, pela primeira vez em mais de meio século, não se registrou nenhum caso de febre amarela em Salvador. White previu que em breve estaria completamente erradicada a doença no Brasil, e que a Rockefeller poderia concentrar seus esforços na África Ocidental, onde se estava verificando que a doença reinava
endemicamente. 11
Suas expectativas foram frustradas pela revolta militar que deu origem à Coluna Prestes. Travaram-se lutas sangrentas em diversos pontos do Brasil, inclusive nos sertões da Bahia. Em setembro de 1926, o governo federal enviou à região cerca de três mil homens recrutados em São Paulo. Os revolucionários recuaram e, em fevereiro de 1927, 620 sobreviventes da Coluna Prestes se renderam às autoridades bolivianas. As tropas legalistas não imunes que transitaram pelos focos no sertão trouxeram de volta a Salvador vários casos de febre amarela (ibidem pp. 18-9). O surto nesta cidade foi controlado, mas em março e abril de 1927 surgiram novos casos de febre amarela em Pernambuco e Sergipe (ibidem p. 105).
No começo de 1928, o dr. Michael Connor, que substituiu White como diretor das operações no Brasil, desceu o rio São Francisco para verificar, pessoalmente, os casos suspeitos de febre amarela e a presença de Aedes aegypti, que Peryassu encontrara a bordo dos vapores que singravam aquele rio. Connor investigava especificamente a origem de um surto relacionado à presença de soldados em Pirapora, em 1926. Supondo que a infecção teria viajado do litoral para o interior através de hospedeiros humanos e insetos vetores, concluiu que, para alcançar Pirapora, teria de ser transportada em vapores mais rápidos do que existentes no São Francisco. Excluiu, também, a possibilidade de que a doença houvesse sido transportada até Pirapora por viajantes, de cidade em cidade, pois nenhum dos lugares ribeirinhos possuía população ou imigrantes suficientes para manter um surto. Ele desapareceria espontaneamente depois de consumir seu escasso combustível de humanos não imunes.
Em carta a F. F. Russel, diretor de operações em Nova York, Connor admitiu que os especialistas da Rockefeller cometiam erros de diagnóstico: "a entidade clínica não se ajustava àquela que estávamos acostumados a ver em outras partes das Américas". Os norte-americanos tinham tido experiências prévias com "brancos ou quase brancos, mas nunca com negros em grandes números e nos quais a infecção parece assumir a forma atípica com freqüência
muito maior". 12